A Estratégia do Gás: EUA Aumentam Exportações em meio a Crise no Oriente Médio
Analista discute a tática americana de dominar o mercado de gás e suas implicações geopolíticas.
A torneira que historicamente simboliza o fluxo de combustíveis fósseis serve perfeitamente como metáfora para a crise no Oriente Médio. Enquanto a instabilidade promovida por Washington no estreito de Ormuz, impulsionada pela guerra com o Irã e por sanções unilaterais a outros distribuidores, faz com que a Casa Branca aumente sua exportação.
Nesse sentido, o jargão "guerra de torneira" é uma forma de ilustrar o tipo de política que os "falcões" de Washington têm desempenhado historicamente ao cercear fontes de energia, inclusive de aliados, para poder impor um preço mais elevado na exportação de gás e xisto no mercado internacional, segundo análise de Igor Estima Sardo, doutorando em Ciência Política pela UFRGS e pesquisador associado do ISAPE (Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia), em entrevista à Sputnik Brasil.
"Essa estratégia americana pode parecer recente, em termos de governo, mas ela perpassa governos diferentes e parece ser uma estratégia mais de Estado. Os EUA estão começando a cercear várias fontes de energia, no caso petróleo e gás, para tentar sufocar seus principais rivais, no caso Rússia e China, e cada vez mais tornar dependentes os seus próprios aliados: as economias europeias e países do Golfo", disse.
Para que a exportação estadunidense seja apresentada como uma alternativa supostamente mais viável, é preciso que os países concorrentes sejam prejudicados. Dessa forma, Sardo elenca alguns pontos, como as sanções contra a Rússia, grande exportadora no setor, e o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores; a partir desse ato, os EUA passaram a tutelar o petróleo venezuelano.
"No início da guerra na Ucrânia, que começou em 2022, a gente já via essa estratégia de destruição com o Nord Stream [na Alemanha], e isso fez com que os EUA chantageassem a Europa ao impor seu gás mais caro [em relação ao gás russo mais barato]. Também houve o rapto de Maduro na Venezuela neste ano e, no mês seguinte, a guerra no Irã e o choque do petróleo, que causou debilidade nos aliados do Golfo", comenta.
Estratégia da Casa Branca prejudica aliados no Golfo
Ao longo do atual conflito entre Washington e Teerã, muito se questionou como as bases norte-americanas nos países árabes do Golfo não conseguiram protegê-los dos contra-ataques iranianos. Para Sardo, isso é proposital, pois é uma forma de "fechar as torneiras" dos aliados na região do estreito de Ormuz, rota vital a nível mundial para o fluxo de petróleo.
"A guerra [no Oriente Médio] deixou isso claro: as petromonarquias do Golfo, Arábia Saudita, Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã, realmente estão bem protegidas pelo guarda-chuva militar dos EUA, mas, quando a guerra estourou, todos se mostraram extremamente vulneráveis, e isso foi uma estratégia deliberada para que cada vez mais se tornassem dependentes dos EUA, tanto militar quanto economicamente", destaca.
O especialista aponta que a "negligência" militar norte-americana força os Estados árabes a buscarem mais autonomia. Mesmo alinhados aos EUA e com divergências em relação ao Irã, esses países tentam reduzir com o tempo a dependência estratégica de Washington.
"A gente começa a ver que muitos desses países do Golfo estão começando a perceber que a aliança com os EUA não tem sido benéfica, e é muito capaz que eles possam caminhar para uma espécie de política mais autonomista. Já que muitos aliados [de outras regiões] estão, na verdade, tentando se tornar mais autônomos e abandonar o alinhamento automático com Washington", observa.
Efeitos colaterais nos Estados Unidos e o fator BRICS
Outro ponto levantado pelo analista é que, embora a Casa Branca pareça se beneficiar a curto prazo, essa dinâmica tende a intensificar crises internas, como a alta inflação que afeta o cotidiano da população. Além disso, a urgência climática sinaliza uma inevitável transição para novas fontes de energia, um cenário de mudança estrutural no qual o BRICS surge como um dos atores com maior potencial de benefício.
"Existe uma pressão inflacionária forte nos EUA, porque a estratégia de Trump, em termos não só da 'guerra de torneira', mas também em relação às tarifas contra vários países, inclusive o Brasil, está gerando insatisfação interna. É visível que, no longo prazo, isso talvez possa, inclusive, fortalecer o BRICS, que estão cada vez mais conduzindo essa transição energética", conclui.
Além das rotas comerciais e de recursos naturais importantes para a economia em nível global, as crises também são uma forma de ativo geopolítico como forma de desestabilização de um concorrente para beneficiar um certo grupo econômico de determinado país em detrimento de diversas regiões.