ENERGIA

Retorno das exportações de energia da Colômbia ao Equador gera preocupações

Embora o comércio de eletricidade seja retomado, especialistas alertam sobre a dependência energética do Equador.

Por Sputnik Brasil Publicado em 28/07/2026 às 17:05
Colômbia retoma exportação de energia ao Equador em meio a riscos de dependência. © AP Photo / Dolores Ochoa

Déficit equatoriano na produção de energia supera o total que poderia ser adquirido da Colômbia, logo a retomada do comércio de eletricidade apenas expõe o risco de dependência energética.

A Colômbia se prepara para retomar o comércio de energia com o Equador, cinco meses após a suspender as exportações de eletricidade ao país em decorrência de uma crise diplomática. Segundo o ministro de energia colombiano, Edwin Palma, a retomada será gradual e mira restabelecer a segurança energética mútua.

A medida vem em um momento crítico para o Equador. O país gera a maior parte de sua eletricidade por hidrelétricas e nos últimos anos vem enfrentando secas prolongadas que foram agravadas neste ano pelo fenômeno El Niño, reduzindo drasticamente os níveis dos reservatórios e causando apagões de até 14 horas.

A retomada, no entanto, pode não ser tão benéfica assim para o Equador, aponta Ghaio Nicodemos em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil.

Para o coordenador adjunto do Núcleo de Estudos de Atores e Agendas de Política Externa (NEAAPE) e pesquisador do Observatório Político Sul-Americano (OPSA), a medida não terá nenhuma efetividade, já que a resolução 40.306, do Ministério de Minas e Energia da Colômbia, permite somente a exportação do excedente que os operadores privados têm disponível.

"O Equador e a Colômbia têm uma matriz energética parecida, o Equador com 85% de hidrelétrica e a Colômbia com 70%. Só que os dois países vêm enfrentando uma crise hídrica de escassez que compromete justamente a capacidade dos reservatórios", explica.

Além disso, ele aponta que o sistema de energia equatoriano está muito defasado em termos tecnológicos e, mesmo se funcionando a pleno vapor, o país ainda teria um déficit na produção de energia de cerca de 1.100 a 1.300 megawatts. E a conexão que a Colômbia tem com o Equador permite uma exportação de, no máximo, um terço desse déficit.

"Então, é uma solução temporária e é um cheque sem fundo, porque a Colômbia, hoje, na prática, não tem condição e não tem recursos o suficiente para atender essa capacidade toda."

Segundo ele, se não houver um investimento na renovação e diversificação da matriz energética, incluindo fontes renováveis e seguras, o problema de dependência energética do Equador não será solucionado tão cedo.

"As soluções estão todas disponíveis no mercado hoje, mas elas dependem de vontade pública, de vontade política para executar um novo plano de planejamento energético para o Equador. E isso não está no horizonte."

Nicodemos, pesquisador de pós-doutorado em ciência política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), pondera que a dependência energética de vários países da América do Sul é resultado da dificuldade enorme que a região tem para crescer economicamente.

Ele frisa que o desenvolvimento econômico e social real está na industrialização, ou seja, no investimento na indústria de transformação e não na exportação de matéria-prima, que é o principal na região. Como resultado, embora muitos países sul-americanos sejam grandes produtores de petróleo, como é o caso do Equador, esse potencial energético não é transformado em capacidade de produção doméstica.

Pelo contrário, no país quase um terço da capacidade energética está vindo de forma intermitente de fontes externas, é um país que está rifado ao risco por muito tempo, pois não é possível multiplicar a capacidade energética do dia para a noite. "É um despreparo cumulativo, uma série de erros que vão se acumulando."

"Na prática, a gente pode dizer o seguinte, a América do Sul, principalmente, ela produz energia para além daquilo que ela efetivamente demanda para consumir, só que ela produz como matéria-prima, como petróleo que vai para exportação."

Juan Agulló, professor e pesquisador de economia, sociedade e política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), explica que a dependência energética observada na América do Sul é a expressão de um problema global, já que no mundo todo houve um aumento exponencial na demanda por energia.

No recorte da América do Sul, ele afirma que o principal problema é que a lógica do continente é de exportação, que não mudou com o novo contexto de transição energética e digital, principalmente por conta dos lobbies de exportadores. Por isso, há interesse em não alcançar a autossuficiência energética.

"Porque os lucros, o benefício que eles têm vinculado à exportação de energéticos, à exportação de mineração, são tão grandes que eles têm uma influência gigantesca sobre os governos", aponta o especialista.

Agulló considera que o Estado equatoriano errou ao não ter previsto a necessidade de investir em uma planta energética para não ficar dependente da importação de eletricidade, principalmente para garantir a vigilância do porto de Guayaquil, o maior do Equador.

"Para manter esse porto competitivo e um pouco como um porto dominante na área e como uma plataforma de atração de investimentos e de capitais, etc., teria sido muito importante esse investimento em energia. Então, é completamente absurdo que o Estado equatoriano nunca tenha assumido essa necessidade."