Lipedema: a doença que afeta uma em cada dez mulheres e ainda é pouco diagnosticada
Condição inflamatória é frequentemente confundida com obesidade e celulite, atrasando o diagnóstico e o tratamento
Um dos temas envolvendo saúde que está sendo mais comentado e buscado no momento é o lipedema, uma condição de acúmulo desproporcional de gordura nas pernas e braços que acomete principalmente as mulheres. A patologia, apesar de comum, ainda é pouco diagnosticada e costuma ser confundida com obesidade ou celulite.
De acordo com o médico Caio Galvão, uma em cada dez mulheres são acometidas pela doença, que é considerada nova e ainda pouco conhecida até mesmo pela área médica. “Estima-se que 99,5% dos casos de lipedema afetam o público feminino. Os casos em homens são menos comuns, atingindo aqueles que têm alterações hormonais genéticas. Mas é uma doença que está sendo estudada agora e muito associada à obesidade, com 60% das mulheres com lipedema apresentando também esta condição”, destaca.
Uma das principais características do lipedema é o padrão desigual de distribuição da gordura. A parte superior do corpo pode permanecer relativamente fina, mas pernas e quadris apresentam aumento de volume resistente a dietas e exercícios físicos. Além do aspecto estético, a condição costuma provocar sintomas físicos, como dor, sensação de peso, inchaço, cansaço e sensibilidade ao toque. Hematomas espontâneos também são comuns.
O médico ainda aponta que se trata de uma doença crônica e inflamatória e a falta de tratamento adequado prolonga o sofrimento das pacientes. “O lipedema tem caráter inflamatório e hormonal que, apesar de não ter cura, tem controle, atuando evitando a progressão da doença para que ela não chegue a estágios mais avançados”, salienta.
De maneira sistêmica, não há agravamentos do lipedema, no entanto, a condição pode chegar em níveis que afetam o sistema linfático, o que pode gerar complicações como a imobilidade. “A doença pode evoluir desde o estágio mais leve, onde há apenas o acúmulo de gordura, uma leve dor e edema local, para estágios de dificuldade na circulação do sistema linfático, acumulando bastante líquido nos membros inferiores, podendo ser indicada até mesmo uma cirurgia. O risco de quedas também aumenta decorrente do desconforto intenso nos membros inferiores, causando desequilíbrios”, pontua o médico.
O tratamento visa controlar a doença e melhorar a qualidade de vida, adotando uma alimentação equilibrada, com restrição de alimentos considerados inflamatórios, como glúten, açúcar, álcool e ultraprocessados. “A dieta deve ser o mais anti-inflamatória possível para o controle. O uso de corante e substâncias que tentam conservar esses alimentos afetam o tecido adiposo das mulheres, sendo gatilho para as inflamações”, explica o especialista.
A abordagem do tratamento deve ser multidisciplinar, passando pelo diagnóstico clínico, através de um médico, e tratamento do intestino, que é bem inflamado nesses casos. Por isso a importância de combinar diagnóstico com nutricionista, educador físico, para que a atividade seja realizada com baixo impacto e de maneira correta, além do apoio psicológico, pois a condição afeta a autoestima da mulher.
Caio Galvão também explica que a origem do lipedema envolve fatores genéticos e hormonais e que algumas fases da vida da mulher são mais suscetíveis ao aparecimento da doença e agravamento dos sintomas. “Na primeira menstruação, na gestação e na menopausa são períodos onde ocorre uma tempestade hormonal intensa, ambiente propício para a doença se manifestar. Além disso, o lipedema está associado ao hormônio estrogênio, fazendo com que as mulheres com a doença tenham uma chance maior de ter endometriose, síndrome do ovário policístico e algumas outras condições como resistência insulínica”, ressalta.
A falta de informação também abre espaço para tratamentos alternativos, com promessas de resultados rápidos. A utilização de canetas emagrecedoras é alvo de estudos, mas ainda sem indicação formal para combater diretamente o lipedema.
“Pela internet a gente costuma ver muitas promessas milagrosas do tratamento, mas a abordagem deve ser feita em vários fatores, atuando desde o pilar hormonal como em mudanças dos hábitos de vida e de dieta. Também podem ser utilizadas estratégias que melhoram a dor e o edema local, como as meias de compressão, botas pneumáticas e drenagem linfática, que aliviam sintomas”, finaliza Caio Galvão.