POLÍTICA

Estratégias do Centrão para 2026: Neutralidade em Foco

Partidos do Centrão evitam alianças definitivas nas eleições presidenciais de 2026.

Por Sputnik Brasil Publicado em 31/07/2026 às 18:30
Centrão e suas estratégias para as eleições presidenciais de 2026. © Foto / Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

Pesquisadores ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam que o fortalecimento do Legislativo, impulsionado pela tomada do controle do Orçamento através das emendas parlamentares, tornou a escolha de deputados e senadores tão estratégica quanto a do próximo presidente para definir a governabilidade do país.

Nas últimas semanas, em meio a crises de sua candidatura à presidência, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vem encontrando dificuldades para angariar o apoio de partidos do centrão, como Republicanos, MDB, e a federação União Brasil e PP, à sua chapa eleitoral.

Esses partidos preferiram não declarar apoio ao PL à nível nacional, com alianças seguindo as realidades de cada estado. O mais recente exemplo é a recusa do PP em permitir que a senadora Tereza Cristina (MS) se torce vice de Flávio.

Só que esses partidos tampouco estão apoiando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em sua campanha à reeleição.

A escolha por neutralidade destoa das eleições passadas, quando esses partidos ou lançavam seus próprios candidatos, ou entravam em coligações. Em 2018, por exemplo, o MDB lançou Henrique Meirelles à presidência, enquanto o PP apoiou a candidatura de Geraldo Alckmin. Em 2022, o MDB teve como representante na corrida Simone Tebet, e o União lançou Soraya Thronicke.

Neste ano, o centrão não demonstra muito apetite pela disputa, deixando a corrida para a polarização PT x PL e se preocupando em montar a maior bancada possível, de olho nos recursos do fundo partidário e das emendas parlamentares.

Centrão no governo sem fazer esforço

José Paulo Martins Junior, professor de ciência política da Universidade Federal Fluminense (UFF), explica que desde a crise política de 2015, que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, houve um reequilíbrio na relação entre Executivo e Legislativo.

"O Congresso passou a controlar uma parcela muito maior dos recursos, especialmente por meio das emendas parlamentares, reduzindo a predominância que o Executivo exercia."

Embora não exista uma definição única sobre quais siglas integram o Centrão, estimativas baseadas na composição atual da Câmara apontam que partidos tradicionalmente associados ao grupo — como MDB, PSD, Republicanos, PP, União Brasil, Podemos e PSDB-Cidadania — somam cerca de 270 a 280 deputados, mais da metade das 513 cadeiras da Casa.

No Senado, essas legendas também reúnem uma parcela expressiva dos 81 parlamentares, o que faz do bloco um ator decisivo para a aprovação de projetos e para a sustentação política de qualquer governo federal.

Neste ciclo eleitoral de 2026, a perspectiva é que esse número aumente, o que daria maior poder ao Legislativo sobre o Executivo – definição de pautas e questões orçamentárias – e sobre o Judiciário – pressão por impeachment de magistrados e escolha de novos para assumir a posição.

Nesse contexto, a neutralidade adotada por legendas do centrão é uma uma estratégia pragmática diante da polarização entre PT e PL, que deve concentrar grande parte dos votos à Presidência.

Embora esses partidos, em geral, estejam ideologicamente mais próximas da direita, elas tendem a negociar com qualquer governo eleito para assegurar governabilidade e preservar espaços de poder, diz o cientista político.

"Esses partidos sempre foram pragmáticos. Independentemente de quem vencer, o presidente precisará construir maioria no Congresso, e isso passa necessariamente pelo Centrão."

Além disso, mesmo sendo os principais partidos na disputa presidencial, PT e PL dificilmente conseguiriam montar uma bancada superior a 150 deputados, número insuficiente para aprovar matérias de maior relevância ou impedir iniciativas como CPIs e pedidos de impeachment.

"O Centrão sempre ganha. Controla as presidências da Câmara e do Senado, dispõe de muito recurso orçamentário e reúne condições para preservar sua força eleitoral. É muito provável que esses partidos mantenham sua posição dominante dentro do Parlamento."

Ao longo das últimas décadas, esse bloco consolidou influência por sua capacidade de integrar tanto bases governistas quanto oposicionistas, independentemente de quem ocupe o Palácio do Planalto, em troca de participação na agenda legislativa, cargos e recursos orçamentários – especialmente falando das emendas parlamentares do Orçamento Secreto, que foram mais regulamentadas pelo Judiciário do que efetivamente combatidas.

Perda de coordenação do Estado

Essa ampliação de poder do Legislativo reduziu a capacidade de coordenação do Estado brasileiro, diz a cientista política Clarisse Gurgel, professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

Para ela, a crescente destinação de recursos por meio de emendas parlamentares fragmenta o planejamento nacional, pulveriza a verba federal entre gabinetes e enfraquece a capacidade do Executivo de implementar políticas públicas de longo prazo.

Na sua avaliação, o problema não se limita à falta de transparência. O modelo atual desloca a lógica do orçamento público para uma dinâmica de negociações políticas, tornando mais difícil articular investimentos estruturantes em áreas como infraestrutura, ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico.

Por consequência, a disputa eleitoral acaba concentrada na Presidência da República, enquanto a crescente influência do Congresso sobre a execução do orçamento recebe pouca atenção no debate público.

"As pessoas costumam lembrar em quem votaram para presidente, mas frequentemente esquecem em quem votaram para deputado e senador."

Para Gurgel, o fortalecimento do Congresso exige que o eleitor passe a dar ao Legislativo a mesma atenção dedicada à disputa presidencial, vendo o controle crescente de recursos orçamentários pelos parlamentares torna a escolha de deputados e senadores tão relevante quanto a do chefe do Executivo.

Sobretudo, o desafio é reconstruir um equilíbrio institucional que reduza a centralidade do poder orçamentário como instrumento de negociação política e devolva ao Executivo o protagonismo na execução do orçamento, sem retirar do Congresso sua função de fiscalização e representação.

"O Executivo precisa voltar a exercer seu papel de executar o orçamento."