Anac foi alertada sobre falhas na Voepass antes do acidente, aponta TV
Ex-funcionário da Anac denunciou irregularidades de manutenção na companhia aérea anos antes do trágico ocorrido.
Anos antes do acidente do avião da Voepass, que vitimou 62 pessoas em Vinhedo (SP) em agosto de 2024, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) já havia sido alertada sobre graves falhas de manutenção nas operações da companhia aérea, conforme uma reportagem do Fantástico. Desde 2019, um ex-inspetor do órgão regulador denunciou, segundo o programa da TV Globo, o reaproveitamento irregular de peças sem laudo de segurança e a falta de aeronavegabilidade das aeronaves da empresa. Ao invés de suspender as operações da Voepass, a Anac teria ignorado as recomendações e exonerado o agente.
O Estadão não conseguiu localizar as assessorias de imprensa da agência e da Voepass na noite deste domingo. Ao Fantástico, a Anac informou que abrirá um processo interno para averiguar a responsabilidade dos servidores. A companhia aérea, também à TV, reafirmou que a segurança era uma prioridade da empresa.
O ex-funcionário está movendo uma ação judicial contra a Anac, relatando as falhas e alegando perseguições por parte de dirigentes da companhia.
A Polícia Federal, na conclusão do inquérito na semana passada, citou suspeitas de falhas na fiscalização, mas não indiciou funcionários da Anac. A responsabilidade da agência ainda será investigada pelas autoridades federais.
Documentos obtidos pelo Fantástico revelam que um ex-inspetor da Anac, que foi exonerado em 2025 após 16 anos de serviço, já alertava sobre falhas graves na Voepass e reclamava de perseguições por parte de dirigentes da agência reguladora.
Ele recomendou, em 2019, a suspensão da autorização de voo da MAP Linhas Aéreas (que se fundiu à Passaredo para criar a Voepass). O motivo, segundo a reportagem, seriam evidências de que peças estavam sendo utilizadas pela companhia sem a devida avaliação de aeronavegabilidade. De acordo com esse inspetor, essa recomendação não foi seguida pela agência.
Em 2022, houve uma nova denúncia. O então inspetor alertou que peças de um avião que sofreu um acidente em Rondonópolis, Mato Grosso, em 2016, teriam sido reaproveitadas ilegalmente. A Anac afirmou à TV Globo que houve verificação das peças na época e a conclusão foi de que as normas regulatórias eram seguidas.
Ele também enviou e-mails para órgãos internacionais, como a FAA e EASA, agências dos Estados Unidos e da União Europeia, respectivamente. No entanto, a Anac desautorizou o inspetor perante essas agências, fazendo com que ele respondesse a um processo interno por insubordinação em 2023, culminando em sua exoneração após 16 anos de trabalho na agência.
Testemunha citou suspeita de propina à Anac
Na semana passada, a PF informou que um mecânico de pista da Voepass – testemunha na investigação – mencionou a suspeita de pagamento de propina pela Voepass a funcionários da Anac. Segundo o relato, ele estranhou a suspensão de sua carteira de autorização de trabalho, mesmo após ter sido aprovado em um curso de reciclagem exigido. Para o mecânico, a motivação seria a intenção de removê-lo da pista por “criar muito caso”, já que se recusava a liberar aviões que supostamente apresentavam problemas.
A Polícia Federal vai encaminhar a íntegra da investigação à Procuradoria da República no Distrito Federal (MPF) para que a prática de eventuais atos de improbidade administrativa por integrantes da agência seja apurada.
Conforme aponta o relatório, a investigação detectou que a agência havia encontrado, antes do acidente, “diversas não conformidades técnicas e não procedimentais relacionadas à manutenção das aeronaves” da companhia.