POLÍTICA

Conferência de Defesa revela dilema geopolítico do Brasil na América

Análise aborda a resistência do Brasil às pressões dos EUA em conferência sobre segurança continental.

Por Sputnik Brasil Publicado em 11/08/2026 às 11:00
Ministerial com ênfase na defensa da soberania do Brasil frente às pressões dos EUA. © Ministério da Defesa do Peru

A XVII Conferência de Ministros de Defesa das Américas (CMDA), no Peru, ocorrida em julho, escancarou o dilema geopolítico do Brasil no continente. Embora o fórum seja um espaço de diálogo e cooperação, o governo brasileiro se vê obrigado a adotar uma postura de resistência para cegar sua soberania, apesar da pressão da Casa Branca.

Nesse cenário, diante da pressão norte-americana e da proximidade das eleições brasileiras, Brasília se mantém firme diante de Washington, principalmente na questão de classificar facções criminosas como terroristas. É o que explica Yasmim Abril M. Reis, doutoranda em relações internacionais pelo Programa de Pós-Graduação San Tiago Dantas, em entrevista à Sputnik Brasil.

"Um ponto que gostaria de destacar, que acontece em meio a esse debate, é o crime transnacional. Em março, os próprios EUA tentam tirar o debate multilateral e constituir relações de diálogo mais bilateral, tentando fazer com que o debate do narcotráfico seja transferido para esse fórum e o tema vai se voltar principalmente por essa tensão entre Brasil e Estados Unidos", disse.

Um especialista que publicou seu artigo "Declaração de Cusco: o compromisso com a segurança regional" no Boletim Geocorrente do Núcleo de Avaliação da Conjuntura da Escola de Guerra Naval, na última edição do CMDA, aponta que a participação brasileira nesse tipo de fórum é muito importante devido ao papel de liderança do país na região, apesar do cenário turbulento.

"A reunião, embora aconteça em um momento crítico, ela ainda se mostra como um foro importante de diálogo em que o Brasil busca a partir disso, a defesa da soberania e a sua própria liderança regional, embora ainda tenha essas tensões com os Estados Unidos", comenta.

Escudo das Américas pode ofuscar o papel do CMDA

Yasmim, que também integra o Observatório Político dos Estados Unidos e o Núcleo de Estudos sobre Tecnologia e Violência na América do Sul, acredita que a forte adesão de governos latino-americanos de direita à CMDA pode ser ofuscada pelo tempo pelo Escudo das Américas, programa liderado por Washington que enquadra o narcotráfico como terrorismo, negociado de pretexto para expandir a atuação militar norte-americana na região.

“Embora seja um momento crítico, a reunião ainda faz sentido ao tentar trazer os países para essa conversa [sobre Defesa], embora ela esteja um pouco mais vazia, de certa forma, pela ascensão do Escudo das Américas. Eu acho que, nos próximos anos, o Escudo das Américas pode se fortalecer, visto o alinhamento ideológico que se tem na região com o governo Trump”, destaca.

Na ocasião, o ministro da Defesa do Brasil, José Múcio Monteiro, reuniu-se com o subsecretário de Defesa dos EUA, Elbridge Colby, em reunião bilateral solicitada pelos norte-americanos. Os EUA destacaram o Brasil como um parceiro estratégico fundamental no combate ao narcotráfico, como informado em nota a pasta no dia 8 de julho.

"Os EUA trouxeram à pauta a cooperação no combate ao narcotráfico, tema já levantado no discurso do secretário americano para todos os ministros da CMDA. Os EUA pontuaram que buscam sócios e parceiros no continente para atuar nesse combate e disseram que veem no Brasil um grande parceiro em potencial. O ministro José Mucio demonstrou interesse na parceria [...] e citou algumas iniciativas dos militares brasileiros nas fronteiras", informa a nota.

Neste contexto, Yasmim ressalta que, na assinatura da Declaração de Cusco ao fim da conferência, que antecedeu a fala do ministro Múcio sobre 'abrir o portão' aos EUA em caso de invasão, o Brasil reafirmou seu posicionamento histórico contra a interferência estrangeira direta nos países da região.

"Principalmente na Declaração de Cusco, que seria importante mencionar aqui, dentro do documento, é assinado ali, reafirmando a defesa da soberania e o fórum multinacional, ou seja, o que seria essa defesa? O que o Brasil tem reafirmado e buscado é que não tem uma interferência direta sobre os países", conclui.

Apesar da política externa expansionista e agressiva de Washington para a América Latina, os EUA contam com o apoio de governos de direita na região, a chamada “onda azul”. Essa convergência ideológica funciona, muitas vezes, como um mecanismo de alinhamento automático que enfraquece a soberania regional e coloca os fóruns multilaterais em execução.