ECONOMIA

Queda nas taxas de juros em meio a novas dinâmicas geopolíticas

Diálogo EUA-Irã e recuo no petróleo contribuem para a diminuição das taxas futuras.

Por Estadao Conteudo Publicado em 22/09/2026 às 18:15
Juros Depositphotos

Os juros futuros deixaram o movimento de alta observado até o início da tarde para trás e encerraram o pregão desta terça-feira, 22, em queda, uma dinâmica que tem sido observada nas últimas sessões. O gatilho partiu de declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que sinalizaram a retomada do diálogo com o Irã. As falas diminuíram a percepção de risco geopolítico e temores inflacionários em relação ao petróleo, que também fechou em terreno negativo.

Com o auxílio do cenário externo, investidores retomaram o viés aplicador que tem predominado ao longo de setembro, tendo como pano de fundo o 'trade eleitoral' e dados mais fracos de atividade e inflação. Nesse sentido, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), considerada neutra, mas sem fechar as portas para novos cortes nos juros, reforçou as perspectivas de que a redução de 0,25 ponto da Selic em setembro não foi a última.

Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,547%, no ajuste da véspera, a mínima intradia de 13,525%. O DI para janeiro de 2029 recuou a 13,68%, de 13,712% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 diminuiu de 13,912% para 13,87%.

O CIO para as Américas do banco suíço EFG, Luis Ferreira, observou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que a curva dos Treasuries não tem reagido tão rapidamente aos eventos devido ao aumento da concorrência dos títulos corporativos, que agora têm maior peso no mercado, em relação aos papéis soberanos dos EUA. Às 18h02, os Treasuries operavam sem direção única, com queda apenas no vencimento de dois anos.

"É uma questão de tempo até chegar à curva", disse Ferreira, para quem os sinais de que o conflito no Irã não deve escalar, assim como as expectativas sobre o encontro de Trump e o presidente da China, Xi Jinping, a ocorrer nesta quinta-feira, deram um tom mais positivo aos ativos globais. "Trump está muito perto de perder o Senado nas eleições de meio de mandato. Se o conflito continuar do jeito que está, sem nada para aliviar a questão geopolítica, o Fed pode subir os juros o quanto quiser que o petróleo continua subindo", comentou.

Em relatório, o estrategista global da Macquarie, Thierry Wizman, aponta que esta semana pode ser crucial para a direção dos preços do petróleo bruto no médio prazo, dado que os principais atores da guerra EUA-Irã terão reuniões em Nova York. Os acordos e entendimentos que saírem desses encontros podem determinar se o confronto se intensificará ou se haverá um caminho de saída, disse.

Antes das novas falas de Trump, que foram mais conciliadoras do que seu primeiro discurso do dia, o mercado de juros operava em viés de alta em quase todos os vértices. Para o superintendente de renda fixa e crédito da Porto Asset, Ricardo Espindola, parece ter havido um movimento de realização no início da sessão, que ofuscou o efeito benigno que a ata do Copom poderia ter sobre a curva de juros.

Já na parte da tarde, o alívio vindo de fora permitiu a retomada do viés mais aplicador do mercado, avalia, o que seria compatível com o que o Copom trouxe na ata, assim como o cenário de eleições presidenciais mais acirradas. "O natural é vermos os juros mais curtos cedendo para colocar um pouco mais no preço esse cenário de que há espaço para cortes adicionais na Selic", apontou Espíndola.

No cenário-base da Porto Asset, o Copom vai entregar mais duas reduções de 25 pontos-base da Selic este ano, levando a taxa terminal a 13,25%. Após a publicação da ata, a maior parte do mercado passou a trabalhar com essa hipótese: 19 entre 33 instituições consultadas pelo Projeções Broadcast preveem mais dois cortes de 0,25 ponto em 2026.