INTEGRAÇÃO

CPLP apresenta potencial porém é freada por interesses distintos

Especialistas discutem em podcast sobre os desafios e oportunidades da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Por Sputnik Brasil Publicado em 25/09/2026 às 18:30
CPLP busca integrar países lusófonos, mas enfrenta desafios de interesses nacionais diversos. © AP Photo / Armando Franca

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a comunidade de países lusófonos tem potencial para aprofundar a integração, mas interesses nacionais diferentes e a consolidação do BRICS como fórum do Sul Global seriam obstáculos à ascensão como plataforma de poder.

Os nove países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) avançaram em novas iniciativas de cooperação envolvendo mobilidade, juventude, oceanos, alimentação, saúde e resposta a desastres climáticos.

A comunidade também tem potencial geopolítico, pois reúne países estratégicos do Atlântico, da África e do Indo-Pacífico e inclui importantes produtores de energia e minerais. Essa diversidade geográfica confere peso à comunidade, segundo aponta, ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Lucca Medeiros da Silva, doutorando em ciência política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para Silva, a própria língua portuguesa poderia deixar de ser apenas um elemento cultural e se transformar em um instrumento de integração econômica, tecnológica e diplomática. Esse propósito é justamente o que guia a cooperação dentro da CPLP, afirma.

"São atores que, conversando, atuando, tendo um fórum de atuação conjunto, chamam a atenção geopolítica. Mas não me parece ser o objetivo próprio da CPLP agir em bloco", avalia.

Na visão de Silva, não há como negar que o Brasil é o principal ator da CPLP, por ter o maior território, a maior população e a maior economia. Porém, falta interesse nacional em liderar nesse espaço, e a lacuna é preenchida por Portugal.

Ele destaca que o eixo do Atlântico Sul é, de fato, onde se concentram a maioria dos membros da CPLP por ter sido onde se concentrou o poderio do Império Português. Porém, isso não cria uma alternativa às estruturas de poder que historicamente são concentradas no Norte.

"Porque nós temos em Portugal um membro do Atlântico Norte, a gente tem um membro da OTAN, que Portugal integra, integra a União Europeia. Então, para mim, não é um espaço alternativo, é um espaço conectado", avalia o especialista.

Orland Mazuze, especialista em relações internacionais, diplomacia e segurança marítima, avalia que a CPLP tem grande potencial para se tornar uma plataforma de poder político e econômico do Sul Global, mas diz que essa transformação não seria automática, mas sim um processo, por diversos fatores.

"Um dos quais é que o possível impacto da CPLP como uma plataforma de poder político e econômico no Sul Global, encontraria um revés, ou encontraria aqui um obstáculo que é o fato de já existir, ao nível do Sul Global, um outro fórum, no caso o BRICS."

Outro aspecto apontado por Mazuze é que os membros da CPLP têm interesses nacionais frequentemente diferentes, e essa disparidade de interesses poderia inviabilizar a comunidade de se tornar uma referência política e econômica no sentido global.

Ele afirma que a CPLP integra um grupo de países que gradualmente vem ganhando maior relevância ao nível sistêmico, como Brasil e Moçambique, que desde 2010 tem sido um dos países mais falados no mundo devido às descobertas de gás natural.

"Essa relevância poderia ser muito mais forte se nós tivéssemos, ao nível do continente europeu, Portugal com um pouco mais de autonomia, um pouco mais de voz para com a CPLP. Mas, infelizmente, devido a fatores como nível econômico, capacidade política, Portugal não é uma voz tão sonante na região europeia."