Integração entre Pix e Tips europeu pode beneficiar Brasil
Estudo do Banco Central do Brasil e BCE pode reduzir custos em transações internacionais.
Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas apontam que a Europa, abandonada por Washington, cogita novas parcerias, como a integração entre o Pix e o Tips europeu, mas a incapacidade de pensar de maneira autônoma ainda pode levar o continente a "entregar tudo aos EUA".
O Banco Central do Brasil (BC) e o Banco Central Europeu (BCE) iniciaram um estudo de viabilidade para interligar o Pix ao Tips, o serviço de liquidação de pagamentos instantâneos do Eurosistema, para reduzir custos em operações entre o Brasil e a zona do euro. O projeto é mais um passo do Brasil para ampliar a presença internacional do Pix e conectá-lo a outros sistemas de pagamentos instantâneos.
A iniciativa pode ser um avanço na integração financeira entre Brasil e a União Europeia (UE), em um momento que a corrente de comercial bilateral com o bloco europeu alcançou o maior patamar da série histórica, ao longo dos quatro meses de vigência do acordo Mercosul-UE, chegando a US$ 38,9 bilhões (cerca de R$ 202,2 bilhões) entre maio e agosto de 2026.
A iniciativa vem em um momento que o BRICS desperta interesse da França, cujo presidente, Emmanuel Macron, defende uma aproximação entre UE, G7 e BRICS. O mesmo ocorre em outros países europeus fora da UE, como a Sérvia, que manifestou interesse em participar de cúpulas do BRICS, a Turquia, que formalizou pedido de adesão ao grupo, e Belarus, que em 2024 foi acolhido oficialmente como país parceiro.
À Sputnik Brasil, Gustavo Pessoa, economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), avalia que uma conexão entre Pix e TIPS, com pagamentos em reais e euros, pode reduzir etapas de intermediação e facilitar essas operações.
Ele aponta que isso teria impacto positivo para os países envolvidos porque governos ganham quando suas empresas e seus cidadãos conseguem fazer negócios com o exterior de maneira menos cara e mais simples. Segundo o economista, há também um ganho de autonomia.
"Brasil e Europa passam a contar com mais alternativas para movimentar recursos entre suas economias, sem depender tanto de redes administradas em outras jurisdições. Isso não elimina bancos e outros prestadores de serviços, mas pode ampliar a concorrência entre eles."
Pessoa observa que o benefício mais concreto seria gastar menos para enviar e receber dinheiro, além de reduzir o tempo dessas operações. "Pense, por exemplo, em alguém que trabalha na Europa e envia parte do salário para a família no Brasil. Se o custo da transferência cair, uma parcela maior desse dinheiro chega à família. Pequenas empresas e profissionais brasileiros que atendem clientes europeus também poderiam se beneficiar."
Porém, isso não quer dizer que agora haverá um "Pix internacional gratuito", uma vez que ainda é preciso apurar a taxa de câmbio oferecida, das tarifas cobradas e da concorrência entre as instituições. "Também será fundamental deixar claro quanto a pessoa pagará, quanto o destinatário receberá e quem será responsável em situações de fraude", pondera.
Segundo Pessoa, a iniciativa indica um interesse internacional crescente em tornar os pagamentos entre países mais rápidos, baratos e eficientes.
"Esses avanços mostram que o Pix despertou interesse internacional, mas não são suficientes para concluir que os EUA estejam perdendo capacidade de pressão."
Ele acrescenta ser possível que existam novas reações dos EUA à movimentação, principalmente se empresas norte-americanas entenderem que a expansão de sistemas públicos de pagamentos representa uma ameaça às suas receitas. Mas considera precipitado afirmar que uma eventual reação norte-americana ocorrerá especificamente por causa da conexão entre Pix e TIPS.
"O fato de o projeto estar sendo discutido conjuntamente com o Banco Central Europeu fortalece a interpretação de que estamos diante de uma iniciativa de modernização e integração financeira."
Hugo Garbe, professor e economista-chefe da G11 Finance & Restructuring, avalia que a integração entre Pix e Tips permitiria pagamentos mais rápidos, que facilitariam o comércio, o turismo e investimentos e daria às autoridades melhor capacidade de acompanhar os fluxos dentro das regras de cada país.
Garbe observa que a concorrência entre prestadores pode ampliar esse ganho, desde que parte da economia seja repassada ao usuário. Ele aponta que a iniciativa é uma possível desdolarização de determinados pagamentos: reais e euros poderiam ser usados de forma mais direta nesse corredor. Porém, sublinha que isso não elimina o dólar do comércio internacional, das reservas, do financiamento ou da formação de preços.
"Também é preciso distinguir a moeda que aparece para o cliente da forma como os prestadores obterão liquidez e farão a conversão nos bastidores", afirma.
Na visão de Garbe, o caso mostra que o Pix é uma infraestrutura atraente para estudo. mas destaca que a decisão europeia tem seus próprios objetivos de eficiência e não deve ser interpretada, por si só, como uma resposta política aos EUA.
Em relação ao Brasil, ele aponta que, se a expansão dos sistemas de pagamento instantâneos aumentar a concorrência com empresas americanas de pagamentos, pode desencadear reação dos EUA.
"O órgão comercial americano já incluiu serviços de pagamentos eletrônicos em sua investigação e afirmou que políticas brasileiras favoreceriam um concorrente nacional. Essa é a posição do governo dos EUA, não uma prova de que o Pix, em si, seja irregular. A defesa mais sólida da iniciativa é demonstrar regras transparentes, acesso competitivo e benefícios mensuráveis ao consumidor."
Paulo Borba Casella, professor titular de direito internacional da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), diz que o Pix é uma evolução brasileira.
Casella, que coordena o Gebrics-USP, grupo de estudos sobre os BRICS, que reúne atualmente 40 pesquisadores, considera que a possível interação com o sistema europeu, assim como se tem falado de fazer o chamado "PIX do BRICS", ou seja, ter mecanismos de pagamento automático entre os países do BRICS, pode ser uma estratégia internacional de grande impacto e relevância.
No entanto, ele considera que o dólar como referência global e de mecanismo dos EUA para ter seus déficits financiados pelo uso da moeda está longe de desaparecer.
"Mas, sem dúvida nenhuma, uma evolução como essa é um caminho para a desdolarização. Por isso, há tanta pressão do governo dos EUA contra qualquer sistema que torne secundário ou menos necessário o dólar como referência e moeda de conta para transferências internacionais."
Casella avalia que a irresponsabilidade do governo do presidente estadunidense, Donald Trump, também acelera esse processo, e frisa que países como Japão e China já venderam reservas de títulos que tinham do tesouro norte-americano por conta disso.
"O atual governo Trump fez um enorme estrago para o próprio país e para os interesses americanos e a busca de outros canais com menos dependência ao dólar e ao governo dos EUA é um sintoma do comportamento agressivo e unilateralista da atual administração", aponta.
Segundo ele, a medida é vista como uma estratégia razoável para os países que buscam outras formas de atuação no comércio internacional, com menos dependência em relação a um parceiro que não tem se mostrado confiável e nem disposto a compor interesses e atuar de uma maneira coordenada.
"Essas demonstrações de força e agressividade nada ajudam o interesse dos próprios americanos", explica Casella.
Ele considera que, diante dessa postura de Washington, o Brasil tem atuado de maneira sensata, não aceitando a ingerência econômica, política e social pretendida pela atual administração.
"É preciso que o Brasil mantenha a linha que tem adotado de defesa da sua soberania, do interesse nacional, e combater ingerências indevidas como têm sido escancaradamente feitas pelo governo Trump."
Europa e o sonho da volta da velha ordem global
Hugo Albuquerque, jurista e analista geopolítico, diz que a eficiência do Pix encanta a Europa, que tinha condições técnicas de criar um sistema similar, mas não o fez por conta das pressões do capital americano.
Ele avalia que, por um lado, a Europa quer fortalecer os vínculos com o Brasil e o Mercosul e outras partes do mundo. Por outro, parece querer ganhar tempo até passar o governo Trump, para que possa retornar à velha ordem global, que era conveniente para os europeus, por ter acesso ao gás russo e exportar bens tecnicamente mais complexos.
"Mas os próprios americanos procuram ocupar o espaço da Europa e isso faz com que os europeus sejam erráticos, eles são levados a fazer coisas contra o interesse deles", afirma.
Ele acrescenta que os aliados europeus de Washington não conseguem pensar de uma maneira muito autônoma e cita como exemplo o caso da Groenlândia, que diz ter sido "praticamente entregue a Trump sem muita resistência", e as declarações do presidente francês, Emmanuel Macron, sobre aproximar o BRICS da UE e do G7.
"Ele acena ao BRICS para talvez mostrar para os americanos que a França teria alguma independência. Não é isso que tem se confirmado, muito pelo contrário. A França toma posições erráticas em relação à Rússia, até posições estridentes, e volta e meia faz movimentos em zigue-zague em relação à China."
Albuquerque acredita que a Europa continua governada pelo estabilishment liberal e não é capaz de lidar com a pressão dos EUA.
"Se o Trump e essa política de ruptura se estabelecer, os europeus basicamente vão entregar o que eles têm para os EUA. [...] Então é muito confuso o jogo europeu e a Europa só vai mudar se basicamente as atuais forças hegemônicas no continente perderem o controle."
Para Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec DF, a aproximação comercial com a Europa, tanto no estudo sobre a integração do Pix quanto no aumento da relação comercial, favorece o Brasil, que consegue aprofundar relações econômicas relevantes sem ficar excessivamente dependente de um único parceiro.
"Quanto mais parceiros relevantes o Brasil tiver, menor será o custo de dizer 'não' a qualquer um deles. O ganho estratégico da Europa para o Brasil está justamente aí: ela não precisa substituir EUA ou China para ser importante. Ela amplia o espaço de escolha brasileiro", explica.
Galvão acrescenta que há uma razão econômica e outra geopolítica para a Europa estar se voltando ao Sul Global, que ele frisa não ser mais apenas destino de exportações e fonte de matérias-primas, mas um espaço de tecnologia, capital político e poder de negociação.
"O interesse europeu por sistemas como o Pix também deve ser visto nesse contexto, embora com cuidado. O BCE está estudando conexões não só com o Brasil, mas também com Índia, Suíça e redes multilaterais de pagamentos. Portanto, não se trata de uma escolha geopolítica isolada pelo Brasil, e sim de uma estratégia mais ampla de interligação financeira."