ECONOMIA

Dólar encerra dia abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez desde maio

Moeda brasileira apresenta recuperação em meio a expectativas favoráveis no mercado financeiro.

Por Estadao Conteudo Publicado em 06/10/2026 às 17:56
Dólar encerra dia abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez desde maio Reprodução

Após o tombo de mais de 4% na segunda-feira, no auge da euforia do mercado financeiro com a dianteira do senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno das eleições presidenciais, o dólar voltou a recuar nesta terça-feira, 6, embora de forma bem mais modesta, e fechou abaixo de R$ 5,00 pela primeira vez desde meados de maio.

Além da expectativa de redução dos prêmios de risco diante da possibilidade de vitória da oposição no segundo turno da corrida presidencial, o real se beneficiou nesta terça do ambiente mais favorável às moedas emergentes, com recuo das taxas dos Treasuries em meio à perda de fôlego dos preços do petróleo.

A moeda brasileira, que na segunda-feira exibiu, de longe, o melhor desempenho entre as principais divisas globais, avançou nesta terça menos que pares como o peso mexicano e o rand sul-africano. Operadores afirmam que um ajuste natural de posições limitou o ímpeto do real nesta terça-feira, mas que não há mudança na tendência de apreciação.

Pela manhã, o dólar chegou a romper o piso de R$ 4,95, com mínima de R$ 4,9456. Depois de rondar os R$ 4,98 ao longo da tarde, terminou o dia em queda de 0,52%, a R$ 4,9756 - menor valor de fechamento desde 12 de maio (R$ 4,8954). A moeda norte-americana recuou 4,62% nos dois últimos pregões. No ano, as perdas ultrapassam 9%, o que faz do real a segunda divisa com melhor desempenho em 2026, atrás apenas do peso colombiano.

O economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo, atribui a apreciação do real à continuidade da redução dos prêmios de risco embutidos na taxa de câmbio, cujo principal gatilho é a perspectiva de uma reforma fiscal em eventual governo de Flávio Bolsonaro. Derrotados no primeiro turno, Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) já anunciaram apoio ao candidato do PL, que busca atrair também partidos do Centrão, como o Republicanos.

"Depois da queda expressiva ontem, era até esperado que houvesse uma realização, com uma pequena alta do dólar hoje. Não é o que aconteceu. Há espaço para mais apreciação do real, embora de forma mais lenta e modesta", afirma Galhardo, ressaltando que, apesar do Congresso mais à direita, uma reforma fiscal abrangente como a esperada pelo mercado, com mudança de pisos constitucionais, exigirá "grande habilidade política", o que Flávio ainda não demonstrou.

Para o analista de câmbio Norman Liebke, do banco alemão Commerzbank, o grau de apreciação do real na segunda-feira surpreendeu, apesar da dianteira de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Ele pondera que o "otimismo inicial dos participantes do mercado deve ser visto com cautela", dada a dificuldade política de adotar uma agenda fiscal restritiva.

"Um parlamento nominalmente mais conservador não é garantia de mudanças. O bloco da direita, fora do PL, permanece fragmentado. E sempre há o risco de que iniciativas pró-mercado deixem de ser prioridade à medida que a pressão política aumenta", afirma o analista, em relatório enviado a clientes.

Lá fora, o índice DXY - que mede o desempenho do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes - recuava 0,31% perto do fim da tarde, aos 101,848 pontos, graças, em grande parte, à recuperação do euro, castigado nas sessões anteriores pelas preocupações fiscais na França. O Dollar Index já sobe quase 0,40% neste início de mês e avança mais de 3,6% no ano.

Galhardo, da Análise Econômica, afirma que, apesar da queda dos yields dos Treasuries nesta terça, o ambiente externo é de juros mais elevados nos países desenvolvidos, em especial nos Estados Unidos, o que tende a limitar o espaço para uma apreciação mais aguda da moeda brasileira, mesmo com a queda do prêmio de risco local.

"A economia americana ainda está muito forte, apesar de algum sinal de desaceleração no mercado de trabalho. Um novo aumento de juros nos EUA está a caminho, o que não é positivo para divisas emergentes", afirma o economista.