Análise aponta que sanções e crise do petróleo ameaçam economia global
Especialistas discutem o impacto das sanções ocidentais e da crise do petróleo em diversos países, incluindo os EUA e a Europa.
Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas avaliam que a estratégia ocidental de impor sanções a países prejudicou o acesso ao petróleo e gás, o que encareceu a energia, elevou o custo de vida das camadas mais pobres e beneficiou elites europeias que enriquecem com a especulação.
Em encontro recente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o prefeito de Nova York, Zohran Kwame Mamdani, afirmou que o maior problema da cidade hoje é o alto custo de vida, principalmente com o aluguel.
No restante dos EUA, a situação é similar. Em uma pesquisa recente encomendada pela CNN, 61% dos entrevistados afirmaram ter mudado as compras no mercado para conseguir colocar os gastos dentro do orçamento. Outra sondagem, feita pelo instituto Gallup, apontou que a confiança econômica no país caiu para -45 pontos, em uma escala que varia de -100 (pessimismo total) a +100 (otimismo total). O índice é o menor registrado desde 2022, quando atingiu -58 pontos.
O alto custo de vida reflete também na dinâmica das famílias e perspectivas em relação ao futuro. Segundo um relatório da consultora estadunidense Northwestern Mutual, 42% dos norte-americanos são financeiramente dependentes dos pais, e 20% acreditam que nunca serão independentes.
O cenário não é diferente na Europa. Na Alemanha, por exemplo, a disparada no custo de vida no continente levou o partido socialista Die Linke (A Esquerda) a vencer as eleições estaduais pela primeira vez, tendo como motor de campanha o combate à crise de habitação causada pelo alto valor do aluguel.
À Sputnik Brasil, Jonatan Nuñez, doutor em ciências sociais pela Universidade de Buenos Aires (UBA) e pesquisador em economia política, afirma que a energia tem um papel na alta no custo de vida por ser insumo de quase tudo.
"O choque de 2022 no gás e no petróleo, causado pela guerra na Ucrânia, passou para a eletricidade, o transporte, o frete e os fertilizantes, que dependem de gás, e esses custos costumam demorar a ceder mesmo quando o preço da commodity recua", avalia.
Nuñez aponta que, para os governos, o problema é que combustíveis e tarifas são os preços que o eleitor mais enxerga, logo o custo político é imediato. Diante disso, a reação habitual é subsidiar, liberar estoques estratégicos e buscar produção própria e novos fornecedores, o que tende a colocar a segurança energética na frente da agenda de transição, pelo menos em curto prazo.
No que diz respeito às sanções, ele diz que é importante separar os casos. No recorte da Rússia, o principal choque veio do conflito e do corte do gás fornecido por gasoduto para a Europa, que obrigou o continente a comprar mais gás natural liquefeito (GNL) e a disputar cargas com a Ásia.
"As sanções ao petróleo foram desenhadas justamente para não tirar barris do mercado, e por isso houve um teto de preço em vez de um embargo total, mas elas encareceram frete, seguro e logística e deram origem a circuitos paralelos de transporte."
Já no caso do Irã, Nuñez diz que as sanções limitam as exportações formais, mas boa parte do petróleo continua chegando à China, então o efeito sobre o preço global é bem menor.
Vinicius Modolo Teixeira, professor de geopolítica na Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat), inclui nesse cenário o bloqueio no mar Vermelho contra embarcações sauditas realizado pelo movimento iemenita Ansarr Allah. Tudo isso se interliga ao transporte de petróleo, gás e fertilizantes que saem do golfo Pérsico e da Rússia.
"E as sanções que são colocadas contra esses fornecedores por países ocidentais afetam a cadeia global de suprimentos e geram uma inflação em cadeia, em escala global, e isso acaba afetando diretamente os nossos preços em todas as áreas por depender de transporte, de insumo, energia."
Teixeira destaca que na Europa a ascensão de partidos da direita é uma consequência desse cenário, que surge com respostas fáceis para o aumento no custo de vida que não solucionam o problema, mas capturam o voto de eleitores afetados pela crise econômica.
Isso é um grande problema a nível mundial. Governos ocidentais, Europa e Estados Unidos, têm sofrido e podem sofrer nas próximas eleições com esse tipo de crise e votos que são de protesto da população em busca de soluções que, muitas vezes, não são viáveis, mas são o que eles observam ali como uma chance de mudança. E isso cai na perspectiva de uma alteração para um governo ainda pior.
Na visão de Teixeira, a política de sanções tem um papel crucial nesse cenário, pois quando aplicadas a um grande fornecedor, como é o caso de Rússia, Belarus e países do golfo Pérsico, levam a uma busca por outros fornecedores, que não conseguem suprir essa demanda e os preços atingem "níveis escandalosos".
"Acaba levando a um encarecimento absurdo dos preços dessas fontes de energia, de fertilizantes, de insumos agrícolas, e levando a um aumento em efeito em cadeia em todos os preços dos alimentos e outros tipos de commodities que dependem de transporte", complementa.
Fábio Sobral, professor de economia da Universidade Federal do Ceará (UFC), afirma que, além dos conflitos ucraniano e iraniano, a guerra comercial lançada pelos EUA desde o primeiro governo de Donald Trump (2017-2021) dificultou a chegada de produtos nos Estados Unidos, encarecendo os preços internos.
"Há um agravante no caso do Irã, porque o golfo Pérsico é o grande produtor de petróleo com ácido sulfúrico, que é fundamental para a produção de diesel e de querosene de aviação. A economia americana é profundamente dependente do transporte rodoviário e aéreo. Então, isso eleva os custos de transporte e, consequentemente, os preços dos produtos", avalia.
No caso dos Estados Unidos, ele aponta que o efeito é mais imediato por conta da proximidade das eleições de meio de mandato, pois a rejeição ao governo Trump está alta e pode provocar a perda de controle tanto da Câmara dos Representantes quanto do Senado.
Isso traria duas possibilidades para o governo Trump: ou viraria o que se chama de "pato manco", ou seja, não consegue aprovar nada, ou ele pode até sofrer um processo de impeachment, que eu acho que é o mais provável, se Senado e Câmara passarem ao comando democratas.
Quanto aos governos europeus ele considera que aqueles que apoiam o conflito na Ucrânia e o isolamento da Rússia tendem a se desgastar.
"É o que nós temos visto, por exemplo, na Alemanha, onde o chanceler Friedrich Merz, do Democracia Cristã, tem perdido todas as eleições que tem participado", observa.
Sobral enfatiza que a explosão dos gasodutos Nord Stream 1 e 2, o rompimento de grande parte das relações econômicas com a Rússia e a política de sanções provocaram o desaparecimento de uma série de matérias-primas essenciais para a economia europeia funcionar, e o continente não consegue suprir suas necessidades energéticas e de fertilizantes sozinho. No entanto, ele destaca que não são todos na Europa que sofrem as consequências.
Para as altas burguesias financeiras europeias, o pessoal que aposta em mercado de commodities, bolsas de valores, em derivativos, esses mercados especulativos, a situação está extraordinariamente boa. Essa camada altamente rica e separada da população em geral tem se beneficiado enormemente. A economia não atinge igualmente a todos e todas.
Na visão de Sobral, as perspectivas de futuro são as mais sombrias, pois o bloqueio continua no estreito de Ormuz, assim como os ataques no estreito de Bab el-Mandeb, no mar Vermelho, e nos Estados Unidos as reservas estratégicas de combustíveis tendem a se esgotar, aumentando ainda mais os preços de todos os produtos.
"Já se fala em uma crise maior do que a de 1929, provocada por essa escassez de combustíveis, de querosene de aviação, do despencar das viagens aéreas, aumento imenso do transporte de todas as mercadorias por meio de caminhões nas estradas. As perspectivas para a economia mundial, não só de uma recessão, mas de uma depressão, são grandes."
Como a tendência afeta o Brasil?
Nuñes avalia que o Brasil está em uma posição melhor que a Europa em energia, pois produz petróleo, sobretudo no pré-sal, e tem uma matriz energética com muito peso de renováveis, o que o protege de choques de gás, como o europeu. Porém, ele frisa que o país não está isolado.
"Os combustíveis acompanham o mercado internacional, o país ainda importa parte do diesel que consome e o diesel pesa no frete e nos alimentos. A política de preços da Petrobras e a tributação dos combustíveis funcionam como amortecedores, com custos fiscais e para o investimento."
Teixeira destaca que o Brasil tem lidado com essa tendência com bastante pragmatismo. Como parte do BRICS, o país mantém o diálogo com a Rússia, continuando a importar fertilizantes do país, não adere às sanções contra Moscou nem toma partido no conflito ucraniano e apoia as negociações de paz.
"Porém, no preço do barril do petróleo, que a gente é afetado diretamente pela nossa empresa de petróleo ter sido, em partes privatizada, a rede de distribuição privatizada, o que a gente tem feito é subsidiar para amortecer os efeitos da elevação dos preços dos combustíveis nesse tempo de crise", aponta.
No entanto, ele aponta que essa estratégia tem efeito limitado, e se crise no petróleo escalar ainda mais, o Brasil também não vai suportar um déficit nesses subsídios.
"O Brasil tem algumas medidas a serem tomadas, mas não é totalmente imune a essa situação global."
Sobral, por sua vez, considera que a decisão de não romper com a Rússia blindou relativamente o Brasil da alta de preços, e a importação de fertilizantes russo garantiu que a agricultura brasileira continuasse sem limitações.
"Somos autossuficientes em petróleo leve, o da camada do pré-sal, [...] somos autossuficientes em 80% pelo menos na produção de diesel [...]. Então o Brasil escapa desse problema energético, também não sofre com o desabastecimento agrícola, ele tem se beneficiado com isso. Além do mais, o encarecimento de certas commodities acaba favorecendo as exportações brasileiras."