ECONOMIA

Juros futuros sobem em meio a incertezas eleitorais e riscos fiscais

Expectativas de um segundo turno acirrado entre os candidatos influenciam as taxas de juros no mercado.

Por Estadao Conteudo Publicado em 15/10/2026 às 18:13
Juros futuros sobem em meio a incertezas eleitorais e riscos fiscais Depositphotos

O aumento do prêmio de risco político percebido pelo mercado levou os juros futuros negociados na B3 a fecharem em firme alta nesta quinta-feira, 15. Em um ambiente já tensionado - à medida que o cenário de vitória da oposição no segundo turno, tido como praticamente certo na semana passada, começa a ser ponderado -, a notícia de que assessores de Lula o aconselharam a prometer publicamente "tarifa zero" no transporte público aos fins de semana e feriados, antes do segundo turno, levou a um repique das taxas rumo ao fim da sessão.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,468%, no ajuste da véspera, a 13,517%. O DI para janeiro de 2029 avançou a 12,730%, vindo de 12,436% no ajuste anterior, e o DI para janeiro de 2031 saltou de 12,494% a 12,760%.

Além da falta de clareza sobre a trajetória fiscal do próximo governo - dado que investidores têm expectativa de um ajuste mais austero trazido pela alternância de poder -, a aprovação do Senado à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 já havia sido precificada, mas também pesou, em menor medida, sobre a recomposição dos juros. Por elevar custos com mão de obra, agentes avaliam que a medida terá impacto inflacionário.

A renda fixa local, assim, operou na contramão do alívio observado nos Treasuries, cujas taxas exibiram forte recuo nesta quinta, ainda na esteira do ajuste nas perspectivas para a trajetória da política monetária nos EUA, que agora indicam aumento dos juros em dezembro. Por volta das 18h, o retorno da T-note de 10 anos caía de 5,186% a 5,069%.

Sócio e economista-chefe da G5 Partners, Luis Otávio de Souza Leal afirma que o mercado, em euforia logo após a liderança de Flávio Bolsonaro nas urnas no primeiro turno, agora está entrando em um "choque de realidade", que leva à correção de excessos no desempenho dos ativos. "Isso não é de hoje, vem ocorrendo desde o início da semana, e é tudo ligado à questão eleitoral", observou.

Na plataforma de apostas Polymarket, que tem tido peso para os profissionais de mercado, a chance de vitória do senador do PL já chegou a alcançar 89% e, hoje, está em 76%, um número ainda relevante, mas distante do otimismo demonstrado logo depois do primeiro turno, diz Leal.

Segundo o economista, há uma readequação dos agentes a um cenário de eleição mais disputada e, como as campanhas chegaram em fase decisiva, este ainda deve ser o principal vetor para os ativos domésticos nos próximos dias. Como eventos que ditarão os preços, ele menciona, além da Datafolha a ser divulgada nesta quinta-feira, as sabatinas do presidente Lula e Flávio pela TV Globo, nesta noite e na noite de amanhã, pela ordem, e o debate entre os dois candidatos no domingo, na Band.

"Acho que esse movimento da tarde nos juros futuros é a soma de vários fatores ruins. A eleição abriu a caixa de Pandora", disse o economista-chefe da Monte Bravo, Felipe Tavares, à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado).

Além da disputa presidencial, a transição para uma escala 5x2 de trabalho no Brasil já havia sido em grande parte antecipada, mas ainda assim foi monitorada na sessão devido a seus potenciais efeitos na inflação. Segundo estudo de Andréa Angelo, estrategista de inflação da Warren Investimentos, a medida pode ter impacto de cerca de 0,4 ponto porcentual no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) durante sua implementação.