ECONOMIA

Taxas de juros sobem com incertezas eleitorais

Mercado financeiro reagiu a novas pesquisas que mostram vantagem reduzida de Flávio Bolsonaro sobre Lula.

Por Estadao Conteudo Publicado em 16/10/2026 às 18:11
Taxas de juros sobem com incertezas eleitorais Reprodução

Embora não tenham devolvido totalmente o efeito do rali eleitoral, no qual os ativos domésticos reagiram fortemente à liderança de Flávio Bolsonaro sobre o presidente Lula no primeiro turno, os juros futuros tiveram mais um pregão de recomposição de prêmios nesta sexta-feira, 16. As taxas médias e longas percorreram a tarde em alta, sustentadas por resultados de novas pesquisas eleitorais que mantiveram a tendência de crescimento das intenções de voto em Lula, reforçando dúvidas sobre o cenário, tido como certo até pouco tempo atrás, de que haveria vitória da oposição.

Somado à convicção menor sobre uma alternância de poder em 2027, o novo "pacote de bondades" anunciado pelo governo - com medidas como a aprovação da redução da jornada de trabalho semanal, o perdão de dívidas e ajuda financeira a Microempreendedores Individuais (MEIs) e a promessa de Lula de gratuidade no transporte público aos finais de semana e feriados - também ampliaram a aversão de risco nos DIs. Aos olhos do mercado, o combo é favorável ao petista, o que reduziria as chances de que haja ajuste fiscal mais austero no próximo ano.

No cômputo semanal, marcado pelo ajuste das expectativas do mercado à luz de novas possibilidades eleitorais, a curva a termo também ganhou inclinação, com alta de cerca de 40 pontos-base no miolo e na ponta longa.

Encerrados os negócios nesta sexta-feira, 16, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 subiu de 12,884%, no ajuste da véspera, a 12,895%. O DI para janeiro de 2029 anotou alta a 12,685%, vindo de 12,634%, e o DI para janeiro de 2031 aumentou de 12,684% a 12,720%.

Os retornos dos Treasuries médios e longos também voltaram a avançar no dia, na esteira de dados que mostraram inflação mais persistente e sinais de resiliência da economia americana, mas agentes avaliam que a abertura da curva local tem sido motivada essencialmente por fatores domésticos.

"O principal componente dessa movimentação é fiscal. O investidor está reavaliando as probabilidades dos diferentes cenários políticos e, principalmente, a capacidade do próximo governo de implementar medidas que estabilizem a dívida pública. As discussões recentes envolvendo novas despesas e mudanças na legislação trabalhista também contribuem para essa percepção de risco", afirma o economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos.

Até o segundo turno, diz Mendes, os juros futuros devem continuar apresentando oscilações importantes. Em sua visão, para uma queda mais consistente e sustentável da curva longa, será necessário que o resultado eleitoral venha acompanhado de sinais concretos de responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.

Publicada na noite de quinta, pesquisa Datafolha mostrou que a vantagem de Flávio sobre Lula caiu de 4 pontos porcentuais para 2 pontos em uma semana. Na edição atual, o senador tem 47% dos votos, contra 45% do incumbente, configurando empate técnico. Ao longo da semana, outros levantamentos foram na mesma direção.

A falta de clareza sobre o quadro eleitoral levou, inclusive, a uma mudança marginal nas apostas para as próximas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, observa a economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa. A curva, nesta sexta, segue apontando dois cortes de 0,25 ponto porcentual na Selic nas reuniões de novembro e dezembro, mas prevê reduções menores na primeira metade de 2027, nota.

Na última quarta-feira, a precificação indicava 80 pontos-base de corte no primeiro semestre e, nesta sexta, passou a apontar algo mais próximo de 56 pontos-base, diz a economista. "O movimento é reflexo das incertezas sobre o cenário eleitoral, no qual as pesquisas ratificam um placar muito apertado. No entanto, o movimento de hoje reflete um ajuste de posições após um fechamento importante observado nos últimos dias", afirmou Marianna.