Movimentos populares na Europa são impulsionados pela crise econômica e gastos com a Ucrânia
Analistas comentam que os altos investimentos na Ucrânia geram insatisfação entre os cidadãos europeus.
Protestos impulsionados pela alta no custo de vida, crise habitacional e precarização dos serviços públicos e falta de perspectiva em relação ao futuro tomaram a Europa nas últimas semanas. Iniciados na França, eles ganharam adeptos em outros países do continente encurralando lideranças locais.
Recentemente, o representante especial do presidente russo para o investimento e cooperação econômica com países estrangeiros, Kirill Dmitriev, afirmou que a Europa explode hoje por conta da decisão de seus líderes de seguir a agenda do ex-presidente estadunidense Joe Biden de pressão contra Moscou e por promoverem a ruptura irresponsável com o gás russo que abastecia o continente. O cenário europeu se agravou ainda mais com a crise no estreito de Ormuz, iniciada após os EUA lançarem uma guerra contra o Irã.
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Rodrigo Barros de Albuquerque, coordenador do Centro de Estudos sobre a União Europeia na Universidade Federal de Sergipe (UFS), explica que a perda do poder de compra que afeta a Europa reflete o aumento dos combustíveis, que tem repercussão imediata em vários produtos, porque afeta toda a cadeia global de logística.
"Quando a população percebe que o seu custo de vida ficou mais difícil, que os serviços antes ofertados agora estão em menor qualidade e ainda assim há algum tipo de aumento nos gastos militares, não tem como você não associar uma coisa à outra."
Há ainda outros fatores que contribuem para o aumento no custo de vida na Europa, como o turismo em massa e o avanço do AirBnB, por exemplo, que torna os aluguéis insustentáveis e, no caso da Itália, protestos de agricultores e caminhoneiros no Sul por protestos relacionados ao aumento do diesel.
"A população percebe a perda de capacidade de compra, perda de poder de compra, e vê que o país está anunciando novos pacotes bilionários, porque há uma previsão de um pacote de ajuda à Ucrânia já aprovado na União Europeia, [...] para o cidadão comum, isso é um 'tapa na cara'", avalia.
A desconfiança em relação às capacidades dos governos de responder às demandas da população também alimenta os protestos, conforme aponta professor de relações internacionais na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), Rafael Miranda, onde é codiretor do Centro de Excelência Jean Monnet em Empresas e Direitos Humanos, financiado pela União Europeia (UE).
"Existe esse sentimento compartilhado entre esses países de que as condições de vida estão se tornando cada vez mais difíceis e de que as instituições políticas também não estão oferecendo respostas satisfatórias."
Ao podcast ele detalha que, mesmo quando os índices inflacionários diminuem, isso não significa uma redução dos preços, apenas que a taxa pela qual aumentam fica mais lenta. Ou seja, os preços não retornam aos patamares anteriores e uma família continua pagando mais caro por alimentação, energia, transporte e moradia.
"Acredito que existe também uma dimensão ainda mais profunda dentro desse cenário de conexão entre essas diferentes realidades, que é a percepção de ruptura de uma espécie de compromisso social que caracteriza boa parte da experiência europeia do pós-guerra."
Uma das consequências de manifestações como as observadas na Europa costuma ser o fortalecimento de movimentos reacionários, o que influencia as respostas eleitorais, uma vez que há a percepção de que a democracia é incapaz de melhorar as condições materiais de vida da população.
"A insegurança econômica não produz automaticamente posições extremistas, mas quando a gente combina com desconfiança institucional, sentimento de perda de reconhecimento social, ausência de alternativas políticas também convincentes dentro do cenário europeu, isso pode criar situações favoráveis para o fortalecimento de discursos autoritários e nacionalistas."
Miranda considera que não basta que uma economia cresça ou que o Estado seja seguro, é necessário que a população perceba que ela possui condições materiais, oportunidades, perspectivas para construir o seu futuro.
"Quando essa expectativa começa a desaparecer, a insatisfação também deixa de ser exclusivamente econômica e ela passa a ser um desafio político para a própria democracia. Eu acho que é isso que a gente tem observado no contexto europeu."