Divisão na Bancada Evangélica expõe racha sobre a possível indicação de Jorge Messias ao STF
O ministro da AGU é visto por 28 deputados protestantes como um nome conservador e preparado, capaz de dialogar com o governo. A ala bolsonarista, contudo, o acusa de ser uma peça do "projeto petista".
A especulada indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para a vaga do ministro Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF) está causando uma fissura na Bancada Evangélica, historicamente alinhada ao bolsonarismo.
Uma pesquisa do GLOBO com os 91 deputados autodeclarados evangélicos ao Instituto de Estudos da Religião (Iser) mostra que a divisão é concreta: 28 parlamentares apoiam a eventual indicação, enquanto apenas 8 se declaram contrários e 7 estão indecisos ou preferiram não se manifestar.
Apoio da Ala Moderada
Parte das lideranças do grupo vê em Messias um perfil que une "preparo jurídico e perfil conservador", o que permitiria a representação dos valores cristãos sem um rompimento total com o governo.
Deputados como Silas Câmara (Republicanos-AM) e Cezinha de Madureira (PSD-SP), ambos da Assembleia de Deus, endossaram o nome publicamente.
- Silas Câmara elogiou o ministro como "forjado no conhecimento jurídico, experiente" e um "cristão sério, com princípios que refletem os valores da maioria dos brasileiros".
- Cezinha de Madureira, que já atuou na linha de frente bolsonarista, afirmou que Messias é "preparado" e integrante da "ala conservadora", o que seria uma escolha estratégica para o presidente Lula.
A guinada de Cezinha e a relação cordial de Lula com a Assembleia de Madureira — uma das maiores vertentes pentecostais — indicam um movimento de reaproximação de parte do segmento evangélico com o Planalto.
Resistência Bolsonarista e Críticas
Apesar do apoio, a ala bolsonarista rejeita a indicação, acusando Messias de ser uma peça ideológica do PT.
- O deputado Marco Feliciano (PL-SP) afirmou que a indicação seria um pagamento de serviços prestados aos governos petistas.
- A deputada Clarissa Tércio (PP-PE) adotou um tom mais duro, classificando a escolha como "péssima". Ela citou o histórico de Messias como aliado de Lula e a sua defesa de Alexandre de Moraes após o ministro ser sancionado pela administração Trump, argumentando que a indicação não traria independência ao Supremo.
Nos bastidores, contudo, mesmo bolsonaristas admitem que Messias, membro da Igreja Batista, é visto como um perfil mais "sóbrio" e que gera menos rejeição do que outros possíveis indicados. O deputado Eli Borges (PL-TO) ponderou: “Prefiro ele do que um perfil como o de Moraes ou Flávio Dino.”
Estratégia do Planalto
Lula mantém o nome de Messias em alta, vendo-o como uma ponte com o eleitorado evangélico. O segmento, que representa 26,9% da população (cerca de 56 milhões) e teve uma taxa de desaprovação ao governo de 63% (14 pontos acima da média nacional, segundo a Quaest), foi majoritariamente bolsonarista em 2022.
Messias tem intensificado sua presença em eventos cristãos, como a Marcha para Jesus, em um esforço para testar sua resistência em um ambiente que ainda associa o PT à pauta de costumes.