TENSÃO NO CONGRESSO

'Clima de guerra' e preocupação marcam reação da Câmara à operação da PF

Ação da Polícia Federal contra assessora ligada a Arthur Lira intensifica clima de desconfiança entre Câmara, STF e governo.

Publicado em 12/12/2025 às 16:04
Polícia Federal Reprodução / internet

Parlamentares da Câmara dos Deputados amanheceram em alerta nesta sexta-feira, 12, após a Polícia Federal realizar uma operação na Casa Legislativa. A ação teve como alvo Mariângela Fialek, conhecida como "Tuca", assessora da Câmara apontada pela PF como integrante de uma "estrutura organizada" que, supostamente sob ordens do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), distribuía indevidamente as emendas do chamado orçamento secreto.

Deputados relataram um ambiente de tensão no Congresso. "Deve ter muita gente preocupada com essa operação", afirmou Aluísio Mendes (Republicanos-MA). Para Luísa Canziani (PSD-PR), o momento é de "clima de guerra".

Sob condição de anonimato, outros congressistas expressaram indignação com o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator do caso das emendas. Eles acusam o magistrado de parcialidade e o veem como um intermediário do governo. Para parte dos deputados, a operação representa uma "porrada direta" contra Lira. A reportagem ouviu parlamentares de diferentes blocos, incluindo governo, oposição e Centrão.

No Centrão, a percepção é de que o STF aproveita um momento de fragilidade do atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), para avançar sobre o tema das emendas do orçamento secreto.

Nesta semana, mesmo diante de protestos do próprio Lira, a Câmara converteu a cassação de Glauber Braga (PSOL-RJ), antes dada como certa, em uma suspensão de seis meses, além de rejeitar a cassação da deputada Carla Zambelli (PL-SP).

Parlamentares do Centrão elogiaram Mariângela Fialek, descrevendo-a como "querida" e peça-chave no atendimento de demandas tanto de Motta quanto de Lira. Ela atuou como assessora técnica da Presidência da Câmara na gestão de Lira e é considerada seu braço-direito na viabilização de emendas parlamentares.

Segundo deputados, mesmo sob a presidência de Motta, Tuca segue desempenhando esse papel. O trâmite, explicam, envolve o parlamentar despachar com Motta ou Lira; um dos dois encaminha o pedido à assessora, que acompanha o andamento das emendas junto aos ministérios.

Anotações obtidas pela PF reforçaram as suspeitas de que recursos públicos eram destinados conforme interesses privados dos deputados, sem compromisso com projetos de longo prazo.

Ao solicitar autorização para as buscas contra a assessora, a Polícia Federal destacou "o incomum desapego à formalidade na formulação orçamentária".

"Uma anotação à mão, realizada de maneira rudimentar, foi responsável pela realocação de recursos de um município para outro. Lamentavelmente, não há como não comparar a maneira de controlar e organizar o orçamento secreto coordenado por Tuca a uma 'conta de padaria'. A anotação transparece que milhões em recursos públicos eram direcionados a partir de comandos verbais, sem qualquer preocupação com projetos ou interesses republicanos de fato", afirmou a PF em sua representação.

Deputados governistas ouvidos pela reportagem afirmam que o problema não os atinge diretamente, mas avaliam que a relação entre os Poderes deve se deteriorar. Um parlamentar do PT destacou que o Judiciário conta com a opinião pública a seu favor no caso das emendas.

A deputada Adriana Ventura (Novo-SP), crítica da falta de transparência nas emendas, considera positiva qualquer operação que traga mais clareza aos repasses, mas faz ressalvas: "Tudo continua como antes. Houve um pouco de transparência, mas ainda há repasses sem critério objetivo e sem autoria clara, escondida sob os nomes das lideranças dos partidos", afirmou.