RELATÓRIO INTERNACIONAL

Transparência Internacional aponta falhas estruturais após caso Master e fraudes no INSS

Organização destaca infiltração do crime organizado e deficiências de governança em setores estratégicos do Brasil, além de sugerir medidas para os três Poderes.

Publicado em 10/02/2026 às 11:03
Reprodução / Agência Brasil

As recentes investigações envolvendo o Banco Master e o esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) evidenciam fragilidades no sistema brasileiro de combate à corrupção, segundo análise da ONG Transparência Internacional. Os dois casos foram destacados no relatório Retrospectiva 2025, divulgado nesta terça-feira (10), como exemplos da infiltração do crime organizado no Estado e de falhas de governança em setores estratégicos da economia formal.

O documento acompanha o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), que manteve o Brasil em 2025 na 107ª posição entre 182 países e territórios avaliados. O país obteve 35 pontos em uma escala de 0 a 100, repetindo a segunda pior nota de sua série histórica.

Entre os destaques do relatório estão a Operação Sem Desconto, que revelou o maior esquema previdenciário do país, prejudicando milhares de aposentados, e a Operação Compliance Zero, que investigou a maior fraude bancária já registrada no Brasil. No caso do Banco Master, a ONG cita contratos de alto valor entre a instituição e escritórios de advocacia ligados a autoridades públicas, além de suspeitas de conflito de interesses e possíveis interferências em investigações.

De acordo com a Transparência Internacional, os episódios demonstram como "a corrupção corrói as instituições e permite que redes criminosas aliciem o Estado e condicionem seu funcionamento a interesses ilícitos". A entidade também destaca falhas na resposta do governo federal ao escândalo do INSS e alerta para o aumento das emendas parlamentares, que ultrapassaram R$ 60 bilhões no orçamento de 2026, consolidando o fenômeno da "captura orçamentária".

Procurado, o Banco Master preferiu não comentar a citação no relatório. O INSS, por sua vez, não respondeu aos contatos.

Apesar do cenário preocupante, o relatório reconhece avanços, como a Operação Carbono Oculto, conduzida pela Receita Federal e pelo Ministério Público de São Paulo, que priorizou o uso de inteligência financeira para rastrear fluxos ilícitos de capital. A rejeição da chamada "PEC da Blindagem" no Senado também é citada como exemplo de mobilização social contra retrocessos na responsabilização de autoridades.

No documento, a Transparência Internacional apresenta um conjunto de recomendações aos três Poderes: ao Executivo, sugere maior transparência orçamentária e fortalecimento das estruturas de investigação; ao Judiciário, propõe um código de conduta no Supremo Tribunal Federal e a redistribuição do inquérito do Banco Master; ao Legislativo, defende a regulamentação do lobby, o aprimoramento do Estatuto da Advocacia e a criação de uma comissão parlamentar para investigar irregularidades no sistema bancário.

Em nota, a Controladoria-Geral da União (CGU) contestou o uso do IPC como medida direta da corrupção, destacando que o índice reflete percepções de grupos específicos e pode variar sem relação com ações do Estado. Segundo a CGU, o caso do INSS ilustra esse fenômeno, já que o esquema foi identificado e interrompido pelo governo, que iniciou o ressarcimento dos aposentados e adotou medidas para corrigir falhas regulatórias.

A Controladoria ressaltou ainda que o aumento das investigações e da transparência não indica crescimento da corrupção, mas sim maior capacidade do Estado de enfrentá-la de forma efetiva.