Juíza alerta para o aliciamento de crianças e adolescentes pelo crime
Vanessa Cavalieri destaca necessidade de políticas públicas e prevenção para evitar entrada precoce de jovens em facções criminosas
Titular da Vara da Infância e Juventude da Capital do Rio de Janeiro, a juíza Vanessa Cavalieri afirmou nesta terça-feira (10), em depoimento à CPI do Crime Organizado, que o enfrentamento da criminalidade juvenil exige intervenção precoce e políticas públicas capazes de mudar a trajetória de crianças e adolescentes antes do envolvimento mais profundo com facções.
Segundo ela, a maioria dos jovens envolvidos com o crime inicia essa prática entre 11 e 13 anos, faixa etária em que ainda há margem para uma ação mais eficaz do poder público.
Trajetória comum
A magistrada relatou que, ao longo de mais de uma década, identificou um percurso de vida recorrente entre adolescentes que chegam ao sistema de Justiça. Ela atribui esse quadro à ausência de planejamento familiar, gravidez na adolescência, falta de creches, baixa qualidade da educação pública e escassez de oportunidades de profissionalização.
Para a juíza, a entrada no tráfico não decorre de vantagem financeira, mas da falta de alternativas concretas de trabalho e de referência.
— É muito mais fácil tirar um menino de 12, 13, 14 anos, que está começando a trabalhar como 'vapor', na boca de fumo, do que prender o dono do morro — declarou Vanessa Cavalieri.
Convidada a falar por requerimento do senador Rogério Carvalho (PT-SE), a magistrada também criticou a situação do sistema socioeducativo. Segundo ela, há mais de 200 adolescentes aguardando vaga de internação no Rio de Janeiro.
Para Vanessa Cavalieri, o adolescente precisa de acompanhamento real e de um projeto de vida, não apenas de comparecimento periódico para assinar um documento.
Internação
O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou que a repressão isolada não resolve o problema, defendendo o enfrentamento da lavagem de dinheiro, da corrupção e da ausência de políticas públicas.
Ao tratar dos casos graves, questionou a juíza sobre o limite atual de três anos de internação para adolescentes autores de atos infracionais violentos. Vanessa Cavalieri considerou esse prazo insuficiente em situações como homicídio, latrocínio e estupro, embora o veja adequado para a maioria dos casos, desde que haja estrutura nas unidades.
— Em algumas situações, especificamente nos atos infracionais análogos a homicídio, latrocínio e estupro, esse prazo é muito reduzido — reconheceu a juíza.
O presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), ressaltou a importância de políticas públicas para evitar o aliciamento de adolescentes, mas defendeu a ampliação do tempo máximo de internação em casos de violência grave.
Ambiente digital
Alessandro Vieira também pediu a avaliação da magistrada sobre o recrutamento digital de adolescentes. Vanessa relatou mudança no perfil dos jovens que chegam ao Judiciário, com o aumento de casos envolvendo meninos e meninas de classe média e alta, ligados a comunidades virtuais de radicalização, misoginia e violência extrema.
Ela citou a plataforma Discord como espaço recorrente nesses processos e afirmou que há dessensibilização em relação à violência e reprodução de conteúdos pornográficos e misóginos no comportamento desses adolescentes.
O senador Rogério Carvalho associou esse quadro à dificuldade de tratar temas como planejamento familiar e educação sexual, além de criticar a falta de honestidade no debate público sobre segurança.
Já o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS), vice-presidente da comissão, questionou sobre o uso estratégico de menores por facções criminosas. Vanessa Cavalieri respondeu que o recrutamento de crianças e adolescentes é evidente, pois representam mão de obra barata e abundante, defendendo tanto o fortalecimento da prevenção quanto punições mais severas para os chefes das organizações criminosas.