Governo relata dificuldades em acordo global para controle da poluição dos plásticos
Negociações internacionais enfrentam impasses, enquanto Brasil avança na regulação e busca soluções para o problema dos resíduos plásticos
Durante debate realizado na Câmara dos Deputados, representantes do governo federal destacaram os desafios para firmar um acordo global que limite a poluição causada pelos plásticos, apesar de avanços recentes na regulação nacional. O encontro foi promovido pela Frente Parlamentar Mista Ambientalista em parceria com entidades do setor.
Luciana Melchert, do Ministério das Relações Exteriores, relatou que as negociações conduzidas pela ONU para um pacto internacional sobre o tema tiveram, em 2025, um momento considerado “frustrante”. Segundo ela, as reuniões foram marcadas por tensões e conflitos de interesse, o que dificultou o avanço das tratativas. A próxima rodada de negociações está prevista para 2027.
Guerra comercial impacta soluções
O secretário nacional de Meio Ambiente Urbano, Adalberto Maluf Filho, explicou que ideias como a limitação da produção de plásticos já foram descartadas nessas discussões. Ele ressaltou ainda o contexto internacional desfavorável, com a ausência de países-chave, como os Estados Unidos, nas negociações. Outro fator complicador é a queda acentuada no custo de produção do plástico.
“A guerra comercial entre Estados Unidos e China provocou uma grande distorção nos preços, fazendo com que a resina plástica tenha ficado muito mais barata nos últimos anos. Isso dificulta a adoção de medidas para reduzir a produção ou ampliar a reciclagem, pois o preço está em queda”, afirmou Maluf.
O secretário informou que o Brasil está desenvolvendo um índice de reciclabilidade do plástico e estudando alternativas para itens de uso único, como colherinhas de sobremesa. Outras ações envolvem o aumento da coleta seletiva, presente atualmente em apenas um terço dos municípios brasileiros.
O deputado Ricardo Galvão (Rede-SP), integrante da Frente Parlamentar Mista Ambientalista, destacou o potencial do Brasil em inovação tecnológica para enfrentar o desafio dos plásticos. Ele citou como exemplo uma tocha de plasma desenvolvida na Coreia do Sul, capaz de incinerar plásticos a altas temperaturas sem gerar resíduos tóxicos.
Saúde e biodiversidade em risco
Zuleica Nycz, do Conselho Nacional de Segurança Química, alertou para a urgência do tema. Segundo ela, já foram identificadas 16 mil substâncias presentes em plásticos, sendo que 26% delas apresentam riscos à saúde humana e à biodiversidade.
“O pouco que é regulado se restringe a poucos produtos. Não adianta proibir o bisfenol apenas em mamadeiras se a criança continua exposta ao composto em outros plásticos dentro de casa”, exemplificou.
Dados do governo indicam que, anualmente, são produzidas 500 milhões de toneladas de plástico no mundo, volume que pode dobrar até 2060. Apenas 9% desse total são reciclados, 50% vão para aterros sanitários e 22% são descartados de forma inadequada.