Barroso afirma que STF enfrenta momento difícil, mas ressalta trajetória da instituição
Ex-ministro do Supremo destaca importância de não julgar Corte por um episódio isolado e defende debate sobre código de ética
O ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso afirmou que a Corte atravessa "um momento difícil", mas destacou que "um fato não conta a história da instituição". As declarações foram dadas em entrevista à GloboNews, exibida na noite da última terça-feira, 10.
"Há uma percepção crítica real. Eu leio o jornal, vou à farmácia, tenho amigos. Portanto, é um momento difícil. Mas acho que a gente não deve fazer juízos precipitados e não deve considerar que um fato conte a história da instituição", pontuou Barroso.
O ex-ministro defendeu que juízes podem ser acionistas de empresas, desde que não haja conflito de interesses. "Por exemplo, se a família dele tem imóveis, ele pode ter cotas daquela empresa que tem os imóveis. O problema não é esse. O problema, de novo falando em tese, é o tipo de relacionamento que você estabelece com quem, eventualmente, possa ter interesse no seu campo. Essa é a grande delicadeza", explicou.
Barroso também declarou ter "simpatia" pela criação de um código de ética para ministros do STF e revelou que cogitou implementar a medida durante sua gestão. No entanto, não levou a ideia adiante por ser um tema "divisivo" na Corte. "Eu tive muitos projetos importantes que dependiam da coesão do Tribunal", disse.
Durante a entrevista, o jornalista Roberto d'Ávila perguntou, em tom de brincadeira, se Barroso costumava apagar mensagens do celular — uma referência indireta à recente controvérsia envolvendo supostos diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Barroso respondeu que não apaga conversas e comentou não ter percebido a "maldade" na pergunta, ressaltando que costuma manter registros antigos por ter "má memória".
O ex-ministro avaliou ainda que o "timing" da discussão sobre o código de conduta pode não ter sido o ideal. "Se há uma demanda da sociedade, e não há nada a esconder, eu não vejo porquê não fazer. O 'timing' talvez não tenha sido feliz, porque misturou com outros episódios, e alguém sempre pode achar que é contra si, ou por causa disso", concluiu.