Racha de JHC com Arthur Lira redesenha a direita em Alagoas após saída do PL, ida ao PSDB e guerra por espaço político
O discurso da nova política desaba quando o interesse da família entra em campo
O rompimento entre o ex-prefeito de Maceió JHC e o grupo político liderado por Arthur Lira já não pode mais ser tratado como simples ruído de bastidor. Duas semanas depois do estopim da crise, o quadro ganhou forma definitiva e deixou marcas visíveis no tabuleiro alagoano: JHC saiu do PL, assumiu o comando do PSDB em Alagoas, renunciou à Prefeitura de Maceió em 4 de abril de 2026 e foi sucedido por Rodrigo Cunha, empossado no dia seguinte. Do outro lado, Arthur Lira manteve seu próprio rumo político, enquanto o comando do PL no Estado foi entregue a Alfredo Gaspar, que passou a ocupar o espaço antes influenciado por JHC.
Embora os fatos tenham avançado rapidamente, a origem da ruptura continua a mesma e ainda pesa sobre o afastamento entre os antigos aliados. Segundo a imprensa, o impasse central surgiu quando JHC tentou preservar para seu núcleo político mais próximo um espaço privilegiado na composição majoritária de 2026. Os nomes ventilados nesse movimento teriam sido os da senadora Dra. Eudócia, sua mãe, e da então primeira-dama Marina Cândia, sua esposa, para uma das vagas ao Senado. Ainda segundo a imprensa, a proposta foi rejeitada pela cúpula ligada a Arthur Lira, num ambiente de tensão que ajudou a implodir a aliança.
É aí que o discurso da chamada “nova política” começa a perder brilho. Durante muito tempo, JHC se apresentou como um quadro mais moderado, defensor do diálogo e da institucionalização das relações políticas. Mas, quando a disputa interna chegou ao terreno do poder real, o que veio à tona foi uma lógica antiga da política brasileira: a tentativa de acomodar primeiro os seus, para só depois discutir o projeto coletivo. A máxima popular que passou a resumir a crise nos bastidores é dura e direta: “Venha a nós, a vosso reino nada.” Segundo a imprensa, foi justamente quando a composição deixou de contemplar o núcleo íntimo de JHC que a relação com o grupo de Arthur Lira entrou em colapso.
O racha, porém, não nasceu apenas da disputa por espaço familiar. Houve também uma mudança objetiva de poder dentro do PL. Alfredo Gaspar migrou para a legenda e assumiu a presidência estadual do partido em 25 de março, consolidando um novo centro de comando e esvaziando a influência política de JHC na sigla. Com isso, o então prefeito perdeu margem de decisão sobre a chapa majoritária e sobre o próprio futuro eleitoral. A partir desse momento, a permanência no PL deixou de fazer sentido para seu grupo.
Foi nesse contexto que o PSDB apareceu como saída e abrigo. Segundo a imprensa, a migração de JHC para o ninho tucano foi construída como solução para a perda de espaço no PL. No novo partido, ele encontrou o que já não possuía na antiga legenda: comando partidário, autonomia para reorganizar sua base e condições de disputar 2026 sem subordinação direta ao grupo de Arthur Lira e Alfredo Gaspar. A mudança, portanto, foi menos ideológica e mais estratégica. Não se tratou de uma travessia doutrinária, mas de uma realocação de poder.
Os acontecimentos do fim de semana apenas consolidaram esse novo desenho. JHC formalizou sua renúncia à Prefeitura de Maceió no sábado, 4 de abril, dentro do prazo eleitoral, e Rodrigo Cunha tomou posse no domingo, 5 de abril, em sessão especial na Câmara Municipal. A transição preservou o grupo político de JHC no comando da capital, ao mesmo tempo em que liberou o ex-prefeito para se dedicar integralmente ao embate eleitoral que vem pela frente. O gesto foi calculado: sai da prefeitura, mas tenta não sair do centro do jogo.
Do lado de Arthur Lira, o movimento também foi de consolidação. Em vez de recuar após o rompimento, o grupo reforçou a presença de Alfredo Gaspar no PL e passou a exibir uma imagem de unidade no campo da direita alagoana. Publicamente, Gaspar chegou a afirmar que a direita está “unida e fortalecida” no Estado, sinalizando que o bloco procurou transformar a saída de JHC não em derrota, mas em reorganização. Com isso, o que antes parecia uma grande aliança conservadora em Alagoas se fragmentou em polos distintos, com projetos que agora caminham em trilhas paralelas.
No centro dessa crise, permanece uma contradição difícil de ignorar. O político que falava em diálogo e institucionalidade rompeu quando percebeu que não teria liberdade para moldar o arranjo aos interesses da própria casa. Já o grupo que pedia fidelidade e sacrifício coletivo também demonstrou que estava disposto a abrir espaço para quase tudo, menos para dividir o comando real do projeto. Em outras palavras, houve pragmatismo dos dois lados, mas a ferida principal nasceu da disputa por quem mandaria mais — e por quem ocuparia os lugares mais nobres da chapa.
É por isso que, mesmo com a crise já convertida em fatos consumados, o motivo original continua preponderando. Hoje, JHC está no PSDB, fora da prefeitura e reposicionado no tabuleiro. Arthur Lira seguiu o seu caminho. Alfredo Gaspar controla o PL em Alagoas. Rodrigo Cunha assumiu a Prefeitura de Maceió. Tudo mudou na superfície. Mas, no fundo, o afastamento entre esses atores políticos continua explicado pela mesma ferida aberta há cerca de duas semanas: a disputa por espaço, poder e prioridade dentro do campo da direita alagoana.
Se o discurso da renovação resistirá a esse teste, só a campanha dirá. Por enquanto, o que a crise já mostrou é que, em Alagoas, a política de 2026 começou antes do calendário — e começou com uma fratura que ainda está longe de cicatrizar.