ATUALIZAÇÃO DA LEGISLAÇÃO

Reforma do Código Civil levanta alertas sobre direito de família e sucessões

Publicado em 09/04/2026 às 15:41
Deputados na sessão do Plenário Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

A Comissão Temporária do Código Civil (CTCivil) discutiu propostas de atualização da legislação, com impacto direto sobre regras de família e sucessão. Os participantes da audiência realizada nesta quinta-feira (9) apontaram riscos de insegurança jurídica e defenderam ajustes pontuais para evitar aumento de conflitos e garantir maior proteção nas relações familiares. 

— O direito civil não serve apenas para afetos regulares, ele organiza expectativas e sustenta relações econômicas. Quando multiplicamos categorias abertas, transferimos ao Judiciário decisões que deveriam estar na lei — afirmou Leonardo Albuquerque Marques, advogado da União. 

Autonomia nas relações familiares 

A professora do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) e a advogada Renata Vilela Multedo criticaram pontos do Projeto de Lei (PL) 4/2025 — de autoria do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), presidente da CTCivil — que, segundo ela, podem restringir a autonomia nas relações familiares. Um dos exemplos é uma exigência de escritura pública para pactos convivenciais.  

— A gente corre o risco de desvirtuar a natureza da união estável e habilidades a autonomia da maioria, além de comprometer a própria razão de coexistência entre casamento e união estável — disse. 

Judicialização e funcionamento do sistema 

A presidente da Comissão de Direito de Família da secional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, Sílvia Marzagão, alertou para o risco de aumento da judicialização com as mudanças propostas. 

— Não podemos correr o risco de um aumento dessa judicialização, sob pena de colapso do sistema — afirmou. 

Na mesma linha, a defensora pública-geral de São Paulo no exercício, Bruna Simões, destacou a necessidade de que a legislação reflita a realidade da população, especialmente a mais vulnerável. 

— A legislação precisa dialogar com a experiência concreta da população, sobretudo de quem mais depende dela — alertou. 

Pontos técnicos: coerência, proteção e sucessão 

A advogada e professora da Universidade de Fortaleza e da Universidade Federal do Ceará Joyceane Bezerra avaliou que o projeto apresenta excesso de mudanças no curto prazo, sem o amadurecimento necessário, o que pode comprometer a coerência do Código Civil e gerar retrocessos, inclusive na proteção de pessoas com deficiência. 

Também advogada e professora, a presidente da Comissão Nacional de Direito de Família da OAB, Ana Vládia Feitosa, defendeu que a atualização consolide entendimentos já firmados pela regulamentação, com regras claras em temas como habitação, visões e proteção de pessoas vulneráveis. 

Renata Rivitti, promotora do Ministério Público do Estado de São Paulo com atuação na área da infância e juventude, apontou riscos de incoerências que podem fragilizar a proteção de crianças e adolescentes, ao propor propostas ou conceitos abertos na legislação. 

Papel do Legislativo e revisão do texto 

A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) ressaltou a necessidade de o Congresso consolidar regras claras para reduzir a insegurança jurídica. 

— Quem está desenvolvendo para a população é o Poder Legislativo, que tem a obrigação de produzir leis. O Judiciário, acusado de legislar, decide porque não pode deixar de julgar — ponderou. 

Relator-geral do anteprojeto de atualização do Código Civil, Flávio Tartuce destacou que a revisão envolve escolhas relevantes também no direito sucessório, como a posição de compartilhar e conviventes na herança. 

— Não faz sentido, na separação convencional, ter concorrência sucessória. Esse é um momento histórico, temos que ouvir a todos para construir um Código Civil do nosso tempo — enfatizou. 

Também participou dos debates Rosa Nery, relatora-geral do anteprojeto de lei de atualização do Código Civil; Mário Luiz Delgado, relator parcial do livro de direito das sucessões do anteprojeto de lei; Pablo Stolze Gagliano, juiz de direito do Tribunal de Justiça do Estado da Bahia e relator parcial do livro de direito de família do anteprojeto; e a advogada Isabella Paranaguá. 

A comissão ainda fará novas reuniões para continuar a análise das contribuições antes da consolidação do texto final do novo Código Civil.