Gaspar prega união com JHC, mas ação do PL contra vereadores do PSDB expõe curto-circuito na direita
Cenário expõe contradição entre o discurso de união da oposição e a disputa judicial aberta entre aliados de Gaspar e o grupo político de JHC.
O deputado federal Alfredo Gaspar anunciou nesta segunda-feira, 13 de abril, sua pré-candidatura ao Senado da República por Alagoas, durante entrevista à Jovem Pan News Maceió. Na mesma fala, foi além da simples confirmação de seu projeto eleitoral: declarou apoio a JHC como candidato ao governo, numa sinalização clara de que tenta reabrir uma ponte política com o ex-prefeito de Maceió, hoje filiado ao PSDB. A movimentação reposiciona o tabuleiro de 2026 e, ao mesmo tempo, escancara as tensões de um bloco que tenta parecer unido, mas segue rachado nos fatos.
A declaração de Gaspar tem peso político porque acontece logo após o rompimento de JHC com o PL. No fim de março, o agora ex-prefeito deixou a legenda, assumiu o comando do PSDB em Alagoas e passou a montar seu próprio projeto para a sucessão estadual. Reportagem da CNN mostrou que, nesse novo arranjo, JHC trabalha para lançar sua mãe, a senadora Eudócia Caldas, para uma das vagas ao Senado, enquanto sua esposa, Marina Cândia, foi levada para o PSDB com perspectiva de disputa proporcional. Esse movimento abalou a tentativa de formação de uma chapa mais ampla no campo da direita alagoana e colocou em xeque a construção costurada por Arthur Lira e Alfredo Gaspar.
É justamente aí que a fala de Alfredo Gaspar produz ruído. Ao estender a mão a JHC e dizer que o vê como candidato ao governo, o deputado tenta vender uma imagem de pacificação. Mas essa tentativa de conciliação esbarra numa realidade incontornável: na última quinta-feira, 9 de abril, o próprio PL ingressou no TRE de Alagoas com ações por infidelidade partidária contra os vereadores Chico Filho, Cal Moreira e Eduardo Canuto, todos eleitos pela sigla e depois transferidos ao PSDB no rastro político de JHC. As ações pedem a perda dos mandatos e a convocação dos suplentes do PL. Ou seja: no plano do discurso, Gaspar fala em composição; no plano jurídico, seu partido trava uma batalha direta contra o grupo de JHC.
O impasse, portanto, não é apenas partidário. É político, simbólico e estratégico. Como sustentar uma aliança sólida entre dois campos que hoje se enfrentam na Justiça Eleitoral? Como pedir confiança recíproca quando o PL acusa de infidelidade exatamente parlamentares que migraram para o partido controlado por JHC? Antes de qualquer foto de unidade, há uma contenda concreta, formalizada, com potencial de aprofundar ressentimentos e dificultar qualquer acomodação futura. A retórica conciliadora de Alfredo, nesse contexto, soa menos como demonstração de força e mais como um movimento para evitar o isolamento de sua própria candidatura ao Senado.
Do lado de JHC, a equação também é delicada. Se aceitar a lógica desenhada por Alfredo Gaspar e Arthur Lira, terá de rever o discurso de independência que vinha adotando. Em março, o então prefeito afirmou publicamente que não era “refém de nenhum grupo político”, numa fala interpretada como recado direto ao sistema de alianças tradicionais de Alagoas. A mensagem era clara: apresentar-se como líder autônomo, dono do próprio destino e capaz de disputar majoritária sem tutela. Agora, porém, o cenário o empurra para uma escolha incômoda: manter a narrativa da “nova política” ou ceder espaço aos arranjos liderados por nomes que representam justamente a velha engrenagem que ele dizia dispensar.
A dúvida que passa a rondar o ambiente político é objetiva: JHC abrirá mão de seu projeto familiar e pessoal para embarcar numa composição que favoreça Alfredo Gaspar e Arthur Lira? Aceitará ser enquadrado pelos líderes do PL depois de romper com a legenda e posar como adversário da política de grupos? Ou insistirá em tocar candidatura própria, ainda que isso aprofunde a divisão no campo da oposição? Por enquanto, Alfredo Gaspar fez seu movimento. Mas o gesto que quis aparentar grandeza pode acabar expondo fraqueza: ao tentar chamar JHC de volta à mesa, revela que sua pré-candidatura ao Senado talvez dependa mais do ex-aliado rompido do que o discurso público gostaria de admitir.
No fim das contas, a cena política alagoana entra em nova fase com uma contradição explícita. De um lado, Alfredo Gaspar diz que JHC é seu candidato ao governo. De outro, o PL tenta arrancar do PSDB três mandatos ligados ao grupo jhcista. Em política, alianças improváveis não são impossíveis. Mas, neste caso, a costura exigirá mais do que declarações amistosas em rádio: exigirá que alguém recue, ceda espaço e engula o próprio discurso. E, até aqui, não há sinal de que JHC tenha entrado na política para ser manietado por ninguém.