Novo acordão pode reaproximar JHC, Lira e Alfredo e descartar Lessa agora e deixar Rodrigo Cunha fora do jogo de 2028
Após ruptura provocada pela recusa de JHC em apoiar Arthur Lira, novas articulações de bastidores apontam para uma possível recomposição política que pode redesenhar a disputa de 2026 e antecipar a briga pela Prefeitura de Maceió em 2028
A política de Alagoas vive mais uma daquelas movimentações em que nada está oficialmente fechado, mas quase tudo começa a fazer sentido nos bastidores. Depois de deixar o PL em meio a um impasse envolvendo o apoio a Arthur Lira para o Senado, o ex-prefeito de Maceió JHC, hoje no PSDB, pode estar novamente se aproximando do grupo que havia deixado para trás.
A costura, ainda tratada como especulação política e sem anúncio oficial dos principais envolvidos, envolve três nomes centrais da oposição em Alagoas: JHC, Arthur Lira e Alfredo Gaspar. Se confirmada, a composição pode redesenhar a disputa estadual de 2026, alterar a formação da chapa majoritária e antecipar, desde agora, a briga pela Prefeitura de Maceió em 2028.
O ponto de partida dessa história foi revelado pelo presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Em entrevista à Jovem Pan, Valdemar afirmou que a saída de JHC do comando do PL em Alagoas ocorreu depois de o então prefeito se recusar a apoiar Arthur Lira na disputa pelo Senado. Segundo ele, Jair Bolsonaro teria assumido compromisso de apoiar Lira, mas JHC não aceitou seguir essa orientação. Diante da negativa, Valdemar disse que antecipou a intervenção no partido para permitir que JHC buscasse outro caminho partidário.
Naquele momento, a leitura predominante era de ruptura. JHC saiu do PL, migrou para o PSDB e passou a construir um projeto próprio para disputar o Governo de Alagoas. Alfredo Gaspar assumiu protagonismo dentro do PL no Estado, enquanto Arthur Lira manteve sua pré-candidatura ao Senado. O tabuleiro parecia caminhar para uma divisão entre forças que disputam o mesmo campo político, especialmente entre centro-direita, direita e bolsonarismo.
Mas, em política, rompimentos definitivos costumam durar apenas até a próxima necessidade eleitoral.
Nos últimos dias, novas informações de bastidores passaram a apontar para uma reaproximação entre JHC, Arthur Lira e Alfredo Gaspar. Publicação do BNews Alagoas afirma que o acordo político em construção teria JHC como candidato ao Governo de Alagoas, Arthur Lira com força para indicar o nome da vice e Alfredo Gaspar fortalecido para disputar o Senado. Dentro desse desenho, o nome de Jó Pereira aparece como possibilidade para a vaga de vice na chapa de JHC.
A mesma articulação também beneficiaria Alfredo Gaspar. Com JHC na disputa pelo governo, o deputado federal e presidente do PL em Alagoas poderia concentrar sua energia na campanha ao Senado e no fortalecimento do palanque de Flávio Bolsonaro no Estado, sem assumir sozinho o desgaste de montar uma candidatura própria ao Palácio República dos Palmares.
Outra leitura publicada pelo Jornal de Alagoas vai na mesma direção. Segundo a coluna, as conversas avançaram em Brasília e a tendência seria uma composição com JHC candidato ao governo e Arthur Lira e Alfredo Gaspar disputando as duas vagas ao Senado. A publicação também afirma que interlocutores dos grupos políticos já tratam o entendimento como encaminhado, embora o anúncio oficial ainda dependa dos movimentos finais.
É justamente nesse ponto que o acordo passa a produzir efeitos colaterais.
O primeiro atingido pode ser Ronaldo Lessa. O vice-governador rompeu com o grupo governista e passou a ser tratado nos bastidores como o nome natural para ocupar a vice na chapa de JHC. A lógica parecia simples: Lessa agregaria experiência, densidade política e um perfil mais ao centro-esquerda em uma candidatura liderada pelo ex-prefeito de Maceió.
Com a entrada de Arthur Lira na mesa de negociação, porém, esse espaço pode ter sido engolido pelo novo acordo. Se Lira indicar a vice de JHC, como passou a circular nas articulações mais recentes, Lessa perde a posição que parecia reservada a ele na chapa majoritária. Ou seja: o vice-governador, que deixou o campo de Paulo Dantas e Renan Calheiros para embarcar no projeto de JHC, corre o risco de ficar sem o principal ativo político que justificaria sua mudança de lado.
A situação é ainda mais delicada porque Lessa tem trajetória identificada com setores de centro-esquerda e com o campo lulista, enquanto a nova composição aproxima JHC de Arthur Lira, Alfredo Gaspar e do PL, com forte presença do bolsonarismo. O Jornal de Alagoas apontou exatamente esse problema: Lessa entrou no projeto de JHC com expectativa de disputar a vice-governadoria, mas seu encaixe se tornou mais difícil diante de uma chapa com apoio bolsonarista e presença de Alfredo Gaspar, hoje uma das vozes mais identificadas com a direita em Alagoas.
Na prática, se o acordão avançar, Lessa pode ser o primeiro nome a sobrar na acomodação dos interesses maiores. JHC ganharia estrutura. Lira ganharia influência direta na chapa. Alfredo Gaspar preservaria espaço competitivo para o Senado. Já Ronaldo Lessa, que parecia ter encontrado abrigo político no palanque de JHC, passaria a depender de uma nova compensação — ou teria que aceitar papel secundário em uma composição que ajudou a fortalecer, mas que pode não reservar a ele o lugar prometido.
O segundo atingido, no médio prazo, pode ser Rodrigo Cunha.
Rodrigo assumiu a Prefeitura de Maceió após a renúncia de JHC, oficializada em abril de 2026. A Câmara Municipal empossou Rodrigo como prefeito no dia 5 de abril, depois de JHC deixar o cargo para disputar as eleições estaduais. O Congresso em Foco também registrou que, com a renúncia de JHC, o então vice-prefeito Rodrigo Cunha assumiu o comando da Prefeitura de Maceió.
Pela lógica natural da política, Rodrigo Cunha seria candidato à reeleição em 2028. Está no mandato, ocupa a cadeira, herda a máquina administrativa e teria, em tese, o caminho aberto para tentar renovar o comando da capital. Mas, se o acordo entre JHC, Arthur Lira e Alfredo Gaspar avançar com uma promessa futura de acomodação para Alfredo em Maceió, Rodrigo pode acabar sendo transformado em carta fora do baralho dentro do próprio grupo que hoje administra a cidade.
Esse é o ponto mais sensível das especulações.
Nos bastidores, circula a leitura de que Alfredo Gaspar, por ser o nome com menor estrutura eleitoral própria entre os principais pré-candidatos ao Senado, poderia ser contemplado em 2028 com o apoio do grupo para disputar a Prefeitura de Maceió, caso não seja vitorioso em 2026. Não há confirmação pública desse acerto. Também não há declaração formal dos envolvidos nesse sentido. Trata-se, portanto, de uma hipótese política que circula no ambiente de bastidor, mas que ajuda a explicar a lógica de acomodação do possível acordo.
Se essa hipótese se confirmar, Rodrigo Cunha ficaria diante de um problema considerável. O atual prefeito teria que administrar Maceió sabendo que parte de seu próprio campo político poderia estar trabalhando, desde já, por outro nome para a sucessão municipal. Nesse cenário, Alfredo Gaspar deixaria de ser apenas candidato ao Senado em 2026 e passaria a ser também uma espécie de reserva estratégica para a capital em 2028.
A engenharia política teria uma lógica: Alfredo entraria fortalecido no palanque de JHC, disputaria o Senado com apoio do PL e do bolsonarismo e, em caso de derrota, não sairia do jogo. Receberia, como compensação, a possibilidade de disputar Maceió dois anos depois. O custo dessa equação, porém, seria alto: Ronaldo Lessa perderia espaço agora, e Rodrigo Cunha poderia perder espaço depois.
Para JHC, o acordo teria vantagens evidentes. Depois de semanas de instabilidade, desgaste e dúvidas sobre a formação de sua chapa, ele passaria a contar com a estrutura de Arthur Lira, o peso do PL comandado por Alfredo Gaspar e a possibilidade de unificar uma parte expressiva da oposição. A candidatura ao Governo de Alagoas deixaria de depender apenas da força eleitoral de Maceió e ganharia musculatura em Brasília e no interior.
Para Arthur Lira, o movimento também faria sentido. Em vez de enfrentar JHC como adversário ou concorrente indireto, Lira passaria a influenciar a formação da chapa do ex-prefeito, inclusive com a possibilidade de indicar a vice. Além disso, consolidaria sua presença em um palanque competitivo para o Senado, em uma eleição que promete ser uma das mais duras dos últimos anos em Alagoas.
Para Alfredo Gaspar, o ganho seria duplo. No curto prazo, ele disputaria o Senado dentro de uma composição mais ampla, sem carregar sozinho o peso de uma candidatura própria ao governo. No médio prazo, poderia manter aberta a possibilidade de disputar a Prefeitura de Maceió em 2028, especialmente se a candidatura ao Senado não alcançar o resultado esperado.
O problema é que acordos grandes costumam produzir sobras grandes.
Ronaldo Lessa, que parecia ser o vice de JHC, pode perder o lugar para uma indicação de Lira. Rodrigo Cunha, que assumiu a Prefeitura de Maceió e naturalmente poderia tentar a reeleição, pode ver surgir dentro do próprio grupo uma candidatura alternativa para 2028. E JHC, que vinha tentando manter uma posição mais flexível no cenário nacional, teria que lidar com a pressão de um palanque onde Alfredo Gaspar e o PL defendem alinhamento com Flávio Bolsonaro.
Nada disso está oficialmente sacramentado. Não há anúncio formal de chapa, nem confirmação pública de acordo para 2028. O que existe, até agora, são movimentos de bastidor, publicações de colunas políticas, declarações anteriores dos dirigentes partidários e sinais de que a oposição tenta encontrar uma fórmula para não se dividir antes mesmo de começar a campanha.
Ainda assim, o desenho que começa a se formar é politicamente explosivo.
Se o acordão for confirmado, JHC pode ganhar estrutura para enfrentar o grupo governista em 2026. Arthur Lira pode garantir protagonismo no palanque. Alfredo Gaspar pode disputar o Senado sem abrir mão de um projeto futuro para Maceió. Mas Ronaldo Lessa e Rodrigo Cunha podem descobrir que, na nova arrumação, o espaço deles ficou menor do que imaginavam.
Em Alagoas, quando os bastidores começam a falar em acordão, quase sempre há alguém sendo acomodado — e alguém sendo deixado pelo caminho.