POLÍTICA SOCIAL

Flávio Bolsonaro elogia Bolsa Família após críticas antigas ao programa

Levantamento da AP Exata aponta mudança no tom das publicações do senador, que nega ter alterado sua posição

Por Estadao Conteudo Publicado em 17/06/2026 às 16:37
Flávio Bolsonaro Reprodução / Instagram

Ao defender o Bolsa Família e a permanência temporária do benefício para quem entra no mercado formal ou abre o próprio negócio, o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) passou a adotar um discurso diferente do que sustentava em publicações antigas.

Um levantamento da AP Exata Inteligência, feito a partir de postagens do parlamentar no X, antigo Twitter, indica que, depois da chegada de Jair Bolsonaro (PL) à Presidência, em 2019, Flávio mudou o tom sobre o programa, que já havia chamado de "bolsa-farelo".

Procurado, o senador negou que tenha mudado de posição.

Na última segunda-feira, 15, durante evento promovido pela revista Veja, em São Paulo, Flávio classificou o Bolsa Família como um "direito adquirido do povo brasileiro" e criticou o preconceito contra beneficiários.

"Muita gente tem um preconceito com relação a quem está na Bolsa Família, como se não quisesse trabalhar. É um erro isso. Quase 70% das pessoas que recebem o Bolsa Família trabalham informalmente. E não vão para a formalidade por quê? Porque têm medo de perder o benefício", afirmou.

O senador disse que, se for eleito presidente, pretende assegurar que os beneficiários continuem recebendo o auxílio por mais tempo após conseguirem emprego com carteira assinada ou abrirem uma empresa.

"A gente tem que entender que tem uma memória afetiva até. O Bolsa Família é estabilidade para quem já passou fome. A pessoa pensa o seguinte: 'se eu arrumar um trabalho de carteira assinada e perder o Bolsa Família, e se eu perder o meu trabalho, como é que eu vou ficar?'", disse. "Vou reafirmar que mais uma vez, garantir a elas que o benefício vai ser mantido, que nós vamos potencializar essa garantia a elas, para estimular que as pessoas possam ter um emprego formal."

As declarações contrastam com manifestações feitas por Flávio nas redes sociais antes da chegada do bolsonarismo ao Palácio do Planalto.

Em junho de 2013, o senador escreveu que o PT "perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos".

No mesmo ano, em referência à comissão responsável por apurar violações de direitos humanos durante a ditadura militar, publicou: "#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família".

Durante o evento de segunda-feira, Flávio lembrou que o governo de seu pai aumentou o valor do Bolsa Família. No passado, porém, criticou o PT por articular um acordo com a oposição para aprovar reajuste do auxílio. "Financiamento público de campanha do PT", escreveu em 2011.

"O histórico de publicações no X mostra que o Flávio passou a defender o Bolsa Família a partir do governo do pai, em 2019. A primeira publicação positiva sobre o programa foi em outubro daquele ano, citando uma medida provisória, assinada por Bolsonaro, que concedeu o 13º aos beneficiários do programa", afirmou Sergio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados.

Segundo Denicoli, a defesa do programa tem sentido do ponto de vista eleitoral, já que, para recuperar vantagem sobre Lula, Flávio precisaria atrair eleitores moderados e se afastar de posições mais extremas, como a defesa do fim de um programa predominantemente aprovado pelos brasileiros.

Em nota, Flávio afirmou que não houve mudança de posição. "O Bolsa Família é um direito conquistado pelo povo brasileiro e foi o governo do Bolsonaro que triplicou o valor pago às famílias. Diferente do PT, que utiliza o benefício de forma clientelista, nós defendemos um caminho para a mobilidade social. Exatamente por isso, uma das minhas propostas é a ampliação do tempo de permanência no programa a partir da conquista de empregabilidade e renda. Ninguém mais precisará ter medo de perder o benefício por buscar autonomia financeira."

Senador tem dificuldades entre beneficiários do programa

Pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira, 16, mostra que Lula amplia a vantagem sobre Flávio em um eventual segundo turno quando o recorte considerado é o dos eleitores que recebem Bolsa Família.

No eleitorado geral, Lula aparece com 49%, contra 43% de Flávio. Entre os beneficiários do programa social, o petista chega a 67%, enquanto o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro fica com 27%.

A pesquisa ouviu 2.017 eleitores entre os dias 12 e 14 de junho. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, com intervalo de confiança de 95%. O levantamento foi registrado na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-06645/2026.

"Ao defender o Bolsa Família, Flávio agrega outros eleitores. Apesar de ter sido crítico no passado, o próprio governo do pai alterou o posicionamento do bolsonarismo em relação ao programa. E, enquanto estavam no poder, eles não acabaram com a política pública e deram o auxílio emergencial na pandemia, o que deu um boom positivo de popularidade para o Bolsonaro", disse Denicoli.

De acordo com o CEO da AP Exata, a fala de Flávio sobre o Bolsa Família ocorre em meio a outras declarações recentes do senador que buscam suavizar sua imagem após a crise envolvendo o Banco Master e a produção do filme Dark Horse.

Dados da consultoria indicam uma recuperação considerada tímida. Flávio aumentou o volume de menções positivas nas redes, mas ainda aparece como o mais criticado no ambiente digital entre todos os pré-candidatos. O índice de confiança do senador, que mede sua credibilidade junto ao eleitorado, estava em 12,44% na medição desta terça-feira, 16. Em janeiro, o índice chegou a 19,4%.

Flávio votou contra programa no Rio de Janeiro em 2011

Quando exercia mandato de deputado estadual, Flávio foi o único integrante da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) a votar contra o projeto de lei que criou o programa Renda Melhor, apresentado pelo então governador Sérgio Cabral em 2011.

A iniciativa era uma espécie de Bolsa Família fluminense e previa repasse direto de recursos a famílias em situação de extrema pobreza. A proposta foi aprovada por 54 votos a 1.

"Fui o único voto contra na Alerj ao projeto 'Renda Melhor', que (sic) chamei de 'bolsa-farelo', pelo seu caráter clientelista eleitoral", escreveu Flávio no Twitter em novembro de 2011.

Na mesma rede social, ele disse ter apresentado uma emenda para limitar a dois anos o prazo máximo de recebimento do benefício, que voltou a chamar de "bolsa-farelo". A proposta não foi aprovada.

"Eu entendo que cabe ao Estado fornecer meios àquelas pessoas que não têm condições de alcançar a autossuficiência no tocante à educação, no tocante à saúde, no tocante à ascensão social. Isso é algo legítimo. Mas não pode, como está escrito no projeto, isso ter um caráter permanente", discursou Flávio na sessão que aprovou o texto.