STF

Gilmar aponta “erro crasso” em relato de Mendonça sobre delação no caso Master

Ministro afirmou que acordo de colaboração premiada deve ser tratado entre Ministério Público ou Polícia Federal, investigado e advogados

Por Estadao Conteudo Publicado em 23/06/2026 às 08:35
Gilmar Mendes Reprodução

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou na segunda-feira, 22, que há uma “impropriedade” e um “erro crasso” no relato feito pelo ministro André Mendonça de que foi procurado por um advogado de Daniel Vorcaro com uma proposta de “delação seletiva” no caso que apura o Banco Master.

A declaração foi dada durante entrevista ao programa Roda Viva , da TV Cultura, após Gilmar ser questionado sobre a atuação de Mendonça como relator do caso do Banco Master.

Gilmar sustentou que um acordo de colaboração premiada deve ser firmado entre o Ministério Público ou a Polícia Federal e o investigado, com a presença de seus advogados. "Então, aqui já há algo de erro crasso. Se você está participando de conversas ou se está expulsando advogados do processo, isso tem algo de errado", disse.

A fala ocorreu dias depois de Gilmar protagonizar um debate público com Mendonça no julgamento de medidas cautelares relacionadas à manutenção da prisão de Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro.

Na ocasião, Mendonça afirmou ter recusado uma proposta de “delação seletiva” no caso Master. Segundo o relator, um advogado do ex-controlador do banco o interlocutor para tratar de uma colaboração com recortes, mas ele disse não aceitar esse tipo de negociação.

Sem declarar diretamente que Mendonça conduz mal o processo, o decano afirmou que o ministro tem uma “tarefa difícil”, mas defendeu que a investigação siga uma “métrica” para evitar a repetição de erros do passado, em referência à Operação Lava Jato.

Ao explicar a comparação, Gilmar citou episódios que, segundo ele, acenderam um alerta sobre a condução do caso, como vazamentos, divulgação de conversas privadas, prisões de familiares de investigados e a morte de um dos alvos da apuração: Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.

“São elementos que levam a, pelo menos, uma preocupação e semelhanças com o que ocorreu anteriormente”, afirmou o ministro.

Código de ética e exposição do STF

Durante uma entrevista, Gilmar voltou a criticar o momento escolhido pelo presidente do STF, Edson Fachin, para propor uma discussão sobre a criação de um código de ética para ministros da Corte.

Para o decano, o tema deveria ser desenvolvido por uma comissão interna do tribunal e precedido de maior colaboração entre os membros do Supremo.

Segundo Gilmar, Fachin deveria ter conversado mais com os colegas antes de pautar o assunto. "Aguardamos, não sejamos tão pressurosos. Eu falei isso para o Fachin, na época", afirmou.

O ministro também disse que o presidente do STF tem a obrigação de “conduzir o tribunal” e avaliar o momento adequado para adotar medidas dessa natureza. “Eu acho que o presidente tem a obrigação de dirigir o tribunal, de perceber qual é o momento de tomar as medidas”, declarou.

Gilmar negou que sua resistência ao código de ética tenha caráter pessoal contra Fachin, mas afirmou que o Supremo foi sob ataque quando o tema foi colocado em discussão. “Somos amigos”, disse.

Na avaliação do decano, a proposta expõe o tribunal em um momento de vulnerabilidade pública, marcado por questionamentos sobre a atuação de ministros.

Transparência de agendas

Gilmar também foi questionado sobre a transparência das agendas de ministros do STF, a participação em eventos patrocinados e a divulgação de rendimentos obtidos fora do tribunal.

Em resposta, o decano afirmou que sua agenda é pública e disse não ver problema na divulgação de valores obtidos por magistrados em palestras, eventos e outras atividades.

Críticas a Kassio Nunes Marques em decisão sobre pesquisa

O ministro também criticou a decisão do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, de suspender a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel sobre a disputa presidencial de 2026.

O levantamento foi questionado pelo PL sob o argumento de que o questionário induzia respostas contra Flávio Bolsonaro ao associado o senador a Daniel Vorcaro e ao caso Banco Master.

"Eu acho que um caso como esse vai parar no Supremo Tribunal Federal. Se se mantiver essa fiscalização Kassio Nunes Marques, certamente não é uma toxicidade que irá se manter", disse Gilmar.

A análise da decisão pelo plenário do TSE foi interrompida após pedido de vista da ministra Estela Aranha, e a suspensão da pesquisa permanece válida até nova deliberação da Corte.