Dino critica a terceirização de emendas e pede mais transparência ao Governo
Ministro do STF exige critérios rigorosos para rastreabilidade no uso de verbas parlamentares.
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino afirmou que há “um mercado de terceirização ou privatização de emendas” parlamentares no País e que a destinação das verbos por figuras políticas sem carga eletivo representa uma “vinculação esdrúxula” com projetos eleitorais. O despacho de Dino, que determinou ao governo a adoção de critérios mais rígidos de rastreabilidade, transparência e controle sobre as emendas, foi proferido nesta terça-feira, 14, na esteira das investigações que afetam o presidente do PL, Valdemar Costa Neto , e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha .
Ambos tiveram milhões de reais em bens bloqueados por determinação do ministro após a Polícia Federal (PF) apontaram suspeitas de que eles atuam na indicação e no direcionamento de emendas parlamentares mesmo sem exercer mandato eletivo. Valdemar e Cunha negaram enfaticamente qualquer irregularidade e últimos atrasos de ingerência orçamentária.
"Um mercado de terceirização ou privatização de emendas é totalmente incompatível com esse propósito constitucional, isto é, configura-se violência insanável por violação aos princípios da moralidade, legalidade e finalidade. Vale ressaltar que tais revelações são ainda mais intensas se definidas a vinculação entre a esdrúxula terceirização de emendas e projetos eleitorais, pois seria um choque frontal contra os valores mencionados no artigo 14, § 9º, da Carta Magna", aponta Dino na decisão.
Confira as determinações do ministro
Ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos: determinou a apresentação, até 2 de outubro de 2026, de informações atualizadas sobre a implementação da terceira fase da Ordem de Pagamento da Parceria (OPP) para as emendas individuais.
À Polícia Federal: o envio do 11º e do 13º Relatórios Técnicos da Controladoria-Geral da União (CGU) para adoção das disposições cabíveis, incluindo a possibilidade de juntada em inquéritos já existentes ou abertura de novas investigações.
Sobre o relatório da CGU referente às emendas destinadas ao Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS): determinou a extração e autuação, em procedimento apartado e sob sigilo, dos documentos relacionados ao relatório.
Ao ministro da Saúde, ao presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), ao presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e aos presidentes das Comissões de Saúde do Senado e da Câmara: determinaram que se manifestassem, em 30 dias, sobre auditorias do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde (Denasus), apresentando sugestões para corrigir falhas e aprimorar os procedimentos relacionados às emendas na área da saúde.
À Advocacia-Geral da União (AGU): determinou que apresenta, em 30 dias, o 4º Relatório do Grupo de Trabalho criado para monitorar medidas de responsabilização civil e administrativa de agentes envolvidos em denúncias de irregularidades apontadas pela CGU, além de informar disposições para recuperar recursos públicos e os desdobramentos de investigação em curso na CGU.
Ao secretário do Tesouro Nacional: determinou que, em 15 dias, informe a previsão técnica e operacional da criação de códigos e padrões contábeis específicos para identificar individualmente receitas de emendas parlamentares das esferas estaduais, distritais e municipais.
‘Terceirizações’, enfatiza o ministro
No despacho de 39 páginas, Flávio Dino afirma que as chamadas "terceirizações", "cessões" e práticas semelhantes envolvendo a indicação de emendas parlamentares por pessoas sem carga eletiva são "obviamente ilegais".
Segundo o ministro, no modelo constitucional atual, apenas deputados federais e senadores podem, pelas vias formais, indicar emendas ao Orçamento Geral da União.
Dino observou que o Congresso poderia, no futuro, criar novas modalidades de emendas - como de partidos, ONGs, igrejas, sindicatos, Estados ou municípios -, mas isso exigia uma alteração constitucional.
"A propósito, assinarlo que uma oligarquia parlamentar já seria um grave equívoco constitucional; ainda é pior quando um pequeno grupo se acha legitimado até mesmo para transferir a terceiros - que não são parlamentares - o controle sobre a alocação de recursos do Orçamento Geral da União", assevera Dino.
"Não há dúvida de que acordos partidários possam ser celebrados, mas jamais podem implicar o descumprimento da Constituição Federal. Seria normal que um parlamentar atendesse a uma sugestão eventual de aliança um político, mas é totalmente anômalo que ex-parlamentares mantenham cotas orçamentárias informais e, diretamente, transmitam ordens para funcionários da Casa Parlamentar."