Caiado diz que Banco Master “avassalou a política” no Brasil; episódio relembra a ferida dos R$ 117 milhões do Iprev de Maceió
Em discurso na convenção que oficializou sua candidatura à Presidência, ex-governador afirmou que não dará espaço para “bandido crescer”; em Alagoas, aplicação milionária de recursos previdenciários continua sob investigação e sem responsabilização definitiva
O candidato do PSD à Presidência da República, Ronaldo Caiado, utilizou parte de seu discurso na convenção nacional do partido para atacar o Banco Master, criticar a aproximação da instituição financeira com integrantes da política nacional e prometer rigor contra crimes de corrupção e fraudes financeiras.
A convenção foi realizada no domingo, 26 de julho, em São Paulo, e oficializou Caiado como candidato ao Palácio do Planalto, tendo o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, como vice na chapa.
Ao mencionar o escândalo financeiro, Caiado afirmou que o Banco Master teria “avassalado” o meio político brasileiro.
“O Banco Master, que avassalou todo mundo da política. Aqui, não. Banco Master, aqui não tem espaço para bandido crescer, não”, declarou.
A expressão “bandido” foi utilizada pelo próprio candidato durante o discurso. As investigações relacionadas ao banco ainda estão em andamento e deverão apontar as responsabilidades individuais pelos fatos apurados.
“Me dê essa chance, povo brasileiro”
Caiado aproveitou a referência ao Banco Master para reforçar o discurso de combate à corrupção e pedir ao eleitorado uma oportunidade de chegar ao segundo turno da eleição presidencial.
“Aqui tem exatamente uma determinação para a gente poder ter altivez, para dizer ao brasileiro claramente: me dê essa chance, povo brasileiro”, afirmou.
Em seguida, o candidato lançou um desafio direto ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição.
“Me dê a chance de chegar ao segundo turno, que eu vou bater o Lula e nós vamos criar um país diferente e devolver o Brasil aos brasileiros de bem”, declarou Caiado.
O trecho mostra que o candidato do PSD pretende transformar o enfrentamento à corrupção e aos escândalos financeiros em uma das linhas centrais de sua campanha.
Durante a convenção, Caiado também procurou apresentar sua passagem pelo governo de Goiás como prova de sua capacidade administrativa. Segundo ele, quando assumiu o Estado, encontrou dificuldades para pagar os salários dos servidores e uma estrutura pública comprometida pela corrupção.
“Acreditem, é a realidade. Eu não estou falando da boca para fora. Eu tenho a prova de um Estado que estava ali, que não tinha condição nenhuma de sequer pagar salário de servidores, tomado pela corrupção”, disse.
Master chegou à previdência de Maceió
A menção ao Banco Master possui uma conexão direta com Alagoas.
O Instituto de Previdência dos Servidores Públicos de Maceió, posteriormente denominado Maceió Previdência, aplicou cerca de R$ 117 milhões dos recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.
A operação não foi tecnicamente um empréstimo concedido pela Prefeitura ao banco, mas uma aplicação financeira realizada com recursos da previdência dos servidores municipais.
A primeira aplicação teria sido de R$ 80 milhões. Novas operações elevaram o montante para aproximadamente R$ 117 milhões, valor que passou a ser analisado pela Polícia Federal.
Os investimentos foram realizados em um período no qual o instituto era presidido por Ronnie Reyner Teixeira Mota.
Banco foi liquidado
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em 18 de novembro de 2025, submetendo a instituição a um regime destinado ao encerramento das atividades, à apuração de créditos e dívidas e à tentativa de pagamento dos credores.
Após a liquidação, o Maceió Previdência informou que o pagamento de aposentados e pensionistas estava garantido. O instituto declarou possuir patrimônio de aproximadamente R$ 1,4 bilhão e afirmou que os títulos do Banco Master representavam menos de 10% de sua carteira total.
A direção também sustentou que, no momento das aplicações, o banco estava habilitado pelos órgãos reguladores e que os investimentos teriam sido aprovados pelo Conselho de Administração.
A nota, entretanto, não respondeu de maneira conclusiva como e em que prazo os recursos aplicados seriam integralmente recuperados.
PF tenta reconstruir cadeia de decisões
A Polícia Federal pediu a abertura de uma investigação específica para apurar a aplicação dos recursos do Iprev de Maceió no Banco Master. O pedido foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, relator das apurações relacionadas ao caso.
Entre os pontos investigados estão a recomendação apresentada pela consultoria financeira que assessorava o instituto, as discussões do Comitê de Investimentos, as deliberações do Conselho de Administração e os procedimentos utilizados para autorizar as aplicações.
Os investigadores procuram reconstituir a cadeia de decisões que levou o dinheiro dos servidores de Maceió até os títulos emitidos pelo Master.
Até o momento, porém, não existe uma conclusão definitiva da investigação nem responsabilização judicial individualizada pela operação.
Em outras palavras, embora atas e documentos indiquem quem ocupava os cargos, quem participou das reuniões e quais setores analisaram a operação, ainda não foi estabelecido publicamente quem deverá responder por eventuais irregularidades ou por possíveis prejuízos aos cofres previdenciários.
R$ 117 milhões ainda aguardam respostas
O discurso de Caiado coloca novamente o Banco Master no centro da campanha presidencial, mas, em Maceió, o escândalo não é apenas uma discussão política nacional.
São aproximadamente R$ 117 milhões pertencentes ao fundo previdenciário dos servidores municipais, dinheiro destinado a garantir o pagamento de aposentadorias e pensões.
Enquanto Caiado afirma que o banco “avassalou todo mundo da política” e promete impedir que criminosos encontrem espaço em seu eventual governo, servidores de Maceió continuam aguardando respostas objetivas.
Quem recomendou efetivamente a aplicação? Quem autorizou a liberação do dinheiro? Os conselheiros tiveram acesso a todas as informações sobre os riscos? Houve interferência política? E, principalmente, quando os R$ 117 milhões retornarão integralmente aos cofres do Maceió Previdência?
As respostas ainda dependem do avanço das investigações.
O vídeo da convenção, que acompanha esta matéria, mostra o momento em que Caiado cita diretamente o Banco Master, pede uma oportunidade para chegar ao segundo turno e apresenta o combate à corrupção como uma das principais promessas de sua campanha presidencial.