ELEIÇÕES 2026

JHC tenta escapar da sombra de Arthur, mas prazo final mantém Lira no centro do jogo

Depois de atas desenharem uma chapa fortemente condicionada pelo grupo de Arthur Lira e pelo PL, JHC movimenta os bastidores para demonstrar autonomia; especulação sobre candidatura ao Senado aumenta tensão a poucas horas do prazo para os registros

Por Redação Publicado em 14/08/2026 às 12:26
Imagem produzida por inteligência artificial para fins de ilustração editorial, representando de forma simbólica a relação de poder e as articulações políticas entre JHC e Arthur Lira. IA - Tribuna do Sertão

A política alagoana entrou nesta sexta-feira (14) nas suas horas mais imprevisíveis desde o encerramento das convenções partidárias.

E uma semana pode fazer uma diferença enorme.

Na edição impressa da Tribuna do Sertão que circulou na segunda-feira (10), a pergunta estampada era direta: quem manda na chapa de JHC?

A reportagem mostrou como o ex-prefeito de Maceió, depois de deixar o PL justamente em busca de maior autonomia política, terminou novamente sentado à mesa com Arthur Lira e com o partido do qual havia rompido meses antes.

Mais do que isso: as atas partidárias colocaram no papel uma arquitetura na qual Arthur Lira e o PL passaram a exercer enorme influência sobre a composição que deveria sustentar JHC na disputa pelo Governo de Alagoas.

Naquele momento, a imagem política era inevitável: JHC parecia novamente diante do “padrinho” cuja influência havia tentado deixar para trás.

Quatro dias depois, o cenário mudou.

Ou, pelo menos, JHC parece empenhado em demonstrar que mudou.

JHC QUER MOSTRAR QUE MANDA

A movimentação das últimas horas produz uma nova leitura do tabuleiro.

Se até o fechamento da edição impressa, no domingo, Arthur Lira aparecia como o grande articulador da aliança que colocava JHC no Governo, garantia ao PL a indicação da vice e preservava o próprio Arthur para o Senado, agora surgem sinais de que JHC tenta recuperar o controle político sobre seu destino.

É nesse ambiente que apareceu a mais explosiva das especulações: JHC poderia abandonar a candidatura ao Governo para disputar o Senado.

Há versões diferentes circulando.

O UOL publicou nesta quinta-feira (13) que JHC teria comunicado ao presidente Lula e à direção do PSDB a intenção de disputar uma cadeira no Senado. Já a revista Veja trata o movimento com maior cautela e informa que aliados admitem que JHC avalia essa possibilidade.

Até o fechamento desta reportagem, porém, não há declaração pública de JHC anunciando que será candidato ao Senado.

E esse detalhe é fundamental.

Por enquanto, portanto, o Senado deve ser tratado como aquilo que efetivamente é no terreno público: uma possibilidade que movimenta os bastidores e que ainda depende de definição política e formalização eleitoral.

Mas apenas o fato de a hipótese ter ganhado força já provoca uma mudança radical na relação de poder.

Porque, se JHC for para o Senado, deixa de ser o candidato a governador cuja chapa estava sendo desenhada sob forte influência de Arthur Lira e passa a disputar exatamente o mesmo cargo pretendido pelo ex-presidente da Câmara.

O afilhado, nesse cenário, não estaria pedindo a bênção ao padrinho.

Estaria disputando espaço com ele.

O PADRINHO PERDEU O CONTROLE?

Essa talvez seja a pergunta política desta sexta-feira.

Na semana passada, Arthur Lira parecia ter executado uma de suas mais sofisticadas articulações eleitorais.

Sua Federação União Progressista condicionou formalmente o apoio ao Governo ao nome de JHC.

Ao mesmo tempo, entregou ao PL a indicação do candidato a vice-governador.

Arthur permaneceu preservado para uma das vagas do Senado.

O PL formalizou exigências semelhantes.

E JHC, que havia saído daquele partido meses antes em busca de liberdade para montar sua chapa, parecia terminar novamente submetido a uma negociação na qual outros aliados determinavam partes fundamentais de sua candidatura.

Agora, JHC tenta transmitir outra imagem.

A de que ainda controla o próprio destino.

A de que pode mudar de cargo.

A de que pode redesenhar a própria chapa.

E, principalmente, a de que Arthur Lira não tem poder para determinar sozinho os rumos de sua candidatura.

Essa movimentação explica parte da temperatura política das últimas horas.

A ATA DE JHC LHE DEU A CHAVE

Há uma razão documental para que praticamente todas as possibilidades continuem abertas.

A ata da Federação PSDB/Cidadania não definiu nominalmente seus candidatos majoritários.

Em vez disso, entregou à Comissão Executiva da Federação, presidida por JHC, poderes para indicar os nomes para governador, vice-governador e Senado até o prazo final para o pedido de registro das candidaturas.

O documento foi além.

Conferiu poderes para modificar decisões tomadas na própria convenção, incluir ou excluir partidos da coligação, autorizar indicações de aliados e fazer os ajustes necessários à composição eleitoral.

Na prática, JHC ganhou uma poderosa ferramenta para estas últimas horas de negociação.

E amanhã será um dia decisivo.

O RELÓGIO MARCA 19 HORAS

Partidos, federações e coligações têm até 19 horas deste sábado, 15 de agosto, para requerer à Justiça Eleitoral o registro dos candidatos a governador, vice-governador, senador e respectivos suplentes, além dos cargos proporcionais.

É esse prazo que transforma as próximas horas num campo fértil para todo tipo de articulação.

Um detalhe jurídico merece ser registrado: 15 de agosto não é o prazo final absoluto para qualquer substituição de candidato. A legislação eleitoral prevê hipóteses de substituição posteriormente, observados os requisitos e os respectivos prazos. O que termina neste sábado é o prazo ordinário para os pedidos de registro das candidaturas escolhidas para disputar a eleição.

Politicamente, contudo, sábado representa uma fronteira.

Porque alguma configuração terá de ser apresentada.

E é exatamente por isso que telefones não param, reuniões se multiplicam e versões diferentes surgem a cada hora.

TUDO PODE ACONTECER. INCLUSIVE NADA

Existe ainda uma possibilidade que costuma ser esquecida quando os bastidores políticos entram em ebulição:

nada mudar.

JHC pode permanecer candidato ao Governo.

Arthur Lira pode continuar candidato ao Senado.

PL, Federação União Progressista e PSDB podem chegar a um entendimento.

A vice pode ser definida dentro do arranjo que vinha sendo construído.

E o desenho apresentado pelas atas poderá, com ajustes, sobreviver ao terremoto político desta semana.

Ou não.

JHC pode efetivamente decidir pelo Senado.

Nesse caso, será necessário encontrar outro nome para o Governo e reorganizar praticamente toda a engenharia da aliança.

E surgirá um problema ainda maior: como acomodar dois candidatos com peso eleitoral como JHC e Arthur Lira numa disputa em que Renan Calheiros já ocupa uma das principais posições do outro bloco político?

A simples possibilidade explica a tensão.

ARTHUR CONTINUA NO CENTRO

Há, entretanto, uma ironia em toda essa tentativa de JHC demonstrar independência.

Mesmo quando tenta escapar de Arthur Lira, Arthur continua sendo o personagem em torno do qual a movimentação é interpretada.

Se JHC permanece no Governo, a pergunta será quanto precisou ceder para manter Lira e o PL em sua coligação.

Se JHC vai ao Senado, a pergunta será se decidiu enfrentar politicamente Arthur.

Se surgir um terceiro candidato ao Governo, a pergunta será quem o indicou e quem conseguiu preservar mais espaço na nova composição.

Ou seja: mesmo quando a tentativa é demonstrar que o padrinho já não dá as cartas, é a reação do padrinho que ajuda a medir o tamanho da mudança.

Na matéria publicada segunda-feira, a questão era saber até onde JHC estaria disposto a ceder para reunir Arthur Lira e o PL em seu palanque.

Nesta sexta-feira, a pergunta mudou um pouco.

Agora é preciso saber até onde JHC está disposto a ir para demonstrar que não precisa mais pedir bênção a Arthur Lira.

As próximas horas poderão responder.

Ou poderão produzir mais perguntas.

Porque, até as 19 horas deste sábado, a política de Alagoas permanecerá com o tabuleiro aberto.

E, quando o poder está em jogo, tudo pode acontecer.

Inclusive nada.