ENTRE LULA E BOLSONARO

JHC foi a Lula na segunda-feira e terminou a semana aliado ao partido de Flávio Bolsonaro

Por Redação Tribuna do Sertão Publicado em 15/08/2026 às 21:09
JHC ao centro, esteve com Lula no início da semana e fechou com o PL de Gaspar neste sábado

A semana política de JHC começou em Brasília, numa conversa reservada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e terminou neste sábado (15) com sua candidatura ao Governo de Alagoas formalmente apoiada pelo partido que tentará tirar Lula do Palácio do Planalto.

Em apenas cinco dias, JHC transitou entre os dois polos da eleição presidencial.

Na segunda-feira (10), esteve com Lula.

No sábado, fechou com o PL de Flávio Bolsonaro.

E existe um detalhe que torna a fotografia política ainda mais significativa em Alagoas: o presidente estadual do PL e homem que assinou a ata colocando o partido na coligação de JHC é Alfredo Gaspar, justamente o candidato a vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro.

A política alagoana conseguiu, mais uma vez, colocar adversários nacionais dentro do mesmo enredo estadual.

A conversa reservada com Lula


O encontro de JHC com Lula ocorreu no início da semana, fora da agenda oficial do presidente.

A Exame informou que JHC esteve em Brasília na própria segunda-feira, dia 10, quando também ocorreu a operação da Polícia Federal sobre os investimentos do Iprev de Maceió no Banco Master. Segundo a publicação, JHC voltou à capital federal na quinta-feira (13).

O UOL também revelou que JHC procurou Lula e a direção nacional do PSDB para comunicar uma mudança importante em seus planos: naquele momento, havia decidido deixar a candidatura ao Governo e disputar uma das duas vagas de Alagoas ao Senado.

A conversa com Lula, portanto, não foi uma passagem protocolar qualquer por Brasília.

JHC estava redesenhando seu futuro eleitoral e considerou importante comunicar pessoalmente sua decisão ao presidente da República.
Dois dias depois, porém, tudo mudou novamente.

Arthur Lira entrou em campo


A notícia de que JHC pretendia disputar o Senado provocou uma crise dentro da aliança que vinha sendo construída em Alagoas.

Arthur Lira, que também é candidato ao Senado, foi diretamente atingido e pressionou para que JHC voltasse ao projeto original de disputar o Governo. Neste sábado, o ex-prefeito recuou da candidatura senatorial e reassumiu a condição de candidato a governador.

A composição final colocou JHC para governador, Célia Rocha para vice, Arthur Lira e Marina JHC para o Senado.

Mas trouxe junto o PL.

E não apenas como um apoiador informal.

O partido está formalmente dentro da coligação.

O documento é assinado pelo vice de Flávio Bolsonaro


A ata apresentada pelo PL neste sábado não deixa espaço para dúvida sobre o acordo.

O documento registra expressamente a formação da coligação com PSDB/Cidadania, União Progressista, PL, PDT, Democracia Cristã, Federação Renovação Solidária, Podemos e Avante.

Logo depois, o partido aprova JHC para governador e Célia Rocha para vice-governadora.

E quem preside a reunião do PL é Alfredo Gaspar de Mendonça Neto, presidente estadual da legenda em Alagoas.

É o mesmo Alfredo Gaspar escolhido neste mês para ser vice-presidente na chapa de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. A escolha foi anunciada pelo PL em 5 de agosto, e o registro da chapa presidencial já apresenta Flávio e Alfredo como a dupla do partido para enfrentar Lula.

Ou seja: o presidente estadual do partido que tentará derrotar Lula assinou, em Alagoas, a aliança para eleger JHC governador poucos dias depois de JHC conversar pessoalmente com Lula.

De Lula a Flávio em cinco dias


O contraste é inevitável.

Na segunda-feira, JHC estava diante do presidente Lula.

No sábado, sua candidatura estava formalmente amarrada ao partido de Flávio Bolsonaro, adversário direto de Lula na eleição presidencial.
Não significa que JHC tenha declarado apoio pessoal a Flávio Bolsonaro.

Até aqui, os documentos analisados não permitem afirmar isso.

O que eles permitem afirmar é algo politicamente bastante relevante: JHC aceitou que sua candidatura ao Governo seja sustentada por uma coligação da qual participa o PL, partido que concorre diretamente contra Lula pelo comando do país.

E em Alagoas esse PL tem como principal dirigente justamente o candidato a vice de Flávio.

Quem será o candidato de JHC a presidente?


É aí que começa uma pergunta que provavelmente acompanhará JHC durante a campanha.

Em quem ele votará para presidente? Lula? Flávio Bolsonaro? Outro candidato?

JHC é filiado ao PSDB, portanto não está obrigado a assumir automaticamente o candidato presidencial do PL. Mas sua coligação estadual contém uma legenda diretamente envolvida na disputa pelo Planalto - e não apenas lateralmente.

O PL alagoano fornece o vice da chapa presidencial de Flávio Bolsonaro.

Além disso, o partido ganhou espaço importante na chapa de JHC: Luiz Romero, filiado ao PL, será o primeiro suplente de Arthur Lira ao Senado.
Portanto, o PL não aparece apenas para aumentar o número de siglas na fotografia.

Participa da composição.

Lula tem seu candidato em Alagoas


Há ainda outro elemento que torna o movimento politicamente delicado.

Lula já possui um campo político claramente definido em Alagoas.

O principal adversário de JHC na disputa pelo Governo é Renan Filho, ex-ministro dos Transportes do governo Lula e aliado do presidente.

Portanto, JHC não conversou nesta semana com um presidente neutro na eleição estadual.

Conversou com o presidente que está no campo do seu principal adversário.

E depois voltou para Alagoas e consolidou a aliança com o partido que está no campo do principal adversário de Lula no Brasil.

É um cruzamento perfeito de interesses.

A fotografia que JHC terá de explicar


A política permite alianças estaduais diferentes das disputas nacionais. Isso não é novidade no Brasil.

Mas uma coisa é a legalidade da composição.

Outra é o discurso eleitoral.

JHC pretende governar Alagoas e, caso vença, inevitavelmente precisará manter relação institucional com quem ocupar a Presidência da República.
Talvez por isso tenha procurado Lula.

Mas eleição é também escolha de lado.

E, neste sábado, as atas mostraram que o lado escolhido para sustentar sua candidatura em Alagoas inclui formalmente o PL de Flávio Bolsonaro.
A mesma legenda cujo presidente estadual será o companheiro de chapa de Flávio na disputa contra Lula.

É uma situação que pode produzir imagens curiosas durante a campanha.

JHC poderá subir num palanque ao lado de Alfredo Gaspar, candidato a vice de Flávio Bolsonaro, e ao mesmo tempo tentar preservar os canais que abriu com Lula em Brasília.

Um pé em cada Brasília


Talvez essa seja a síntese política da movimentação de JHC nesta semana.

Ele procurou Lula quando avaliava mudar sua candidatura.

Foi pressionado por Arthur Lira.

Mudou novamente de posição.

Voltou à disputa pelo Governo.

Colocou Marina no Senado.

E terminou o prazo eleitoral com o PL oficialmente dentro da sua coligação.

O mesmo PL que lançou Flávio Bolsonaro para enfrentar Lula.

Não há ilegalidade nem incompatibilidade eleitoral automática nisso.

Mas há uma evidente questão política.

Porque depois de uma semana em que JHC conversou com um lado e assinou acordo com o outro, ficará difícil atravessar a campanha sem responder a uma pergunta muito simples: afinal, entre Lula e Flávio Bolsonaro, de que lado estará JHC quando chegar a hora do voto?