POLÍTICA

Arcebispo critica ódio em missa por Nossa Senhora Aparecida

Dom Mário Antônio da Silva pede respeito às diferenças durante celebração no Santuário Nacional.

Por Estadao Conteudo Publicado em 12/10/2026 às 20:23
O arcebispo dom Mário Antônio da Silva Reprodução / Instagram

Em meio a uma eleição onde a padroeira do Brasil se tornou um tema de disputa entre bolsonaristas e petistas, milhares de fiéis participaram ontem da missa solene em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, no Santuário Nacional, em Aparecida, São Paulo. Durante a celebração, o arcebispo dom Mário Antônio da Silva fez um apelo pela paz, criticando as divisões e confrontos, afirmando que o Evangelho "não autoriza o ódio contra quem pensa diferente".

Na última semana antes do primeiro turno, publicações da militância alinhada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, atribuíram falsamente ao candidato do PL, Flávio Bolsonaro, a intenção de retirar da santa o título de padroeira do Brasil, gerando reações de adversários e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Eventual mudança no título de padroeira é uma atribuição do Vaticano, não da Presidência da República.

Diante da polêmica, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi acionado e liberou as postagens sobre o tema, desde que não associem o projeto de lei ao filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Ontem, Lula e Flávio, que disputam o segundo turno da eleição para o Palácio do Planalto, cumpriram compromissos relacionados ao dia de Nossa Senhora. O petista explorou o tema, dizendo que a padroeira do Brasil "é ofendida por alguns religiosos que não querem respeitar a religião dos outros". "Esse gesto é para poder mostrar que, em um país civilizado, harmônico e democrático, cada um segue a religião que quiser, e a gente tem que respeitar. Ninguém é obrigado a ser da mesma religião."

O presidente participou de uma missa na Capela Nossa Senhora da Alvorada, no complexo do Palácio da Alvorada. Flávio, por sua vez, esteve presente em uma missa na Catedral de Brasília. O candidato do PL, que se declara evangélico, afirmou respeitar a fé de milhões de brasileiros. Ele compareceu à celebração católica na capital federal ao lado de sua esposa, Fernanda, e de políticos aliados do DF.

"Saio de um ambiente muito acolhedor. Somos todos cristãos", declarou. O pároco da Catedral, padre Agenor Vieira, mencionou Flávio Bolsonaro durante a celebração, orando "pelos governantes que tomarão posse em janeiro" e pedindo que sigam o exemplo de Maria para promover a harmonia no país.

A equipe de Flávio considerou, mas descartou, a ida ao Santuário Nacional de Aparecida, concluindo que a agenda pareceria "forçada".

A cerimônia na cidade do interior paulista faz parte da programação da Festa da Padroeira, que reúne milhares de romeiros de diferentes regiões do Brasil no Santuário Nacional, um dos principais destinos de peregrinação católica no país.

Construir pontes

Em sua homilia, o arcebispo defendeu a construção de uma paz baseada no diálogo, fazendo referência à mensagem do papa Leão XIV. "Sabemos que Jesus manda construir a paz. E, aqui, escutando o papa Leão XIV, uma paz desarmada e desarmante. Mas muitas vezes alimentamos divisões com armamentos, com guerras e tantos confrontos entre nós", afirmou.

Na sequência, dom Mário Antônio reforçou que os ensinamentos cristãos não podem ser utilizados para justificar a intolerância e a violência. "O Evangelho, queridos irmãos e irmãs, não nos autoriza a odiar quem pensa diferente, nem a matar os inimigos. O Evangelho, sim, nos autoriza a construir pontes onde alguém abre precipícios, ou túneis onde alguém perde Deus", disse.

Ao falar sobre a devoção à padroeira do Brasil, o arcebispo recordou a descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida por pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1717. Ele relacionou a história da santa aos desafios enfrentados pelo país atualmente, pedindo um maior compromisso com o bem comum.

"Que Nossa Senhora Aparecida, encontrada nas águas do Paraíba do Sul em 1717, continue encontrando o Brasil nas águas turvas do nosso tempo, para que cresça em nós o compromisso de cuidar da nossa pátria como um jardim que Deus criou para todos", declarou.

O religioso também destacou o significado da pequena imagem para milhões de brasileiros que recorrem à padroeira em momentos de dificuldade. Segundo ele, a Igreja é formada por pessoas que enfrentam desafios e conflitos, mas que permanecem unidas pela fé.

"Justamente esta pequena imagem se tornou um grande sinal de esperança e ternura para milhões de brasileiros e brasileiras. Aparecida nos recorda que a Igreja não é uma comunidade de perfeitos, é uma comunidade de peregrinos", afirmou.

Calçada e ciclovia

A missa solene contou com a presença de autoridades políticas, entre elas o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin (PSB) - também candidato à reeleição -, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, e a deputada federal Tabata Amaral (PSB).

Católico, Alckmin costuma visitar a cidade de Aparecida na data religiosa, mas neste ano a visita foi reforçada pelo fato de o tema de Nossa Senhora ter virado assunto de propaganda eleitoral.

Alckmin anunciou durante o evento o projeto "Caminho da Fé", que consiste na construção de uma calçada e ciclovia em 134 quilômetros ao longo da Rodovia Presidente Dutra. "Teremos a ciclovia e teremos a calçada, para as pessoas não andarem no acostamento da rodovia Dutra ou da Ayrton Senna, o que é muito perigoso", disse o vice-presidente, ressaltando que neste ano haverá a revisão da concessão da Dutra, administrada pela concessionária RioSP.