FILHO DE GOLPISTA, GOLPISTA É

Dos EUA, Flávio quer Marinho no Senado para transformar derrota nas urnas em cerco ao governo Lula

Senador em fim de mandato convoca apoiadores a pressionar parlamentares, apresenta o Congresso como “trincheira” e associa uma possível crise econômica à queda do presidente reeleito

Por Redação Publicado em 31/10/2026 às 10:33
Dos EUA, Flávio quer Marinho no Senado para transformar derrota nas urnas em cerco ao governo Lula

Derrotado na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro quer fazer da disputa pelo comando do Senado uma nova frente de confronto com o governo Lula. Em transmissão dos Estados Unidos, na sexta-feira (30), o senador anunciou apoio a Rogério Marinho para a presidência da Casa e pediu que seus seguidores pressionem os parlamentares a votar no aliado.

“A nossa trincheira neste momento será o Congresso Nacional, em especial o Senado Federal”, afirmou.

A palavra “trincheira” resume o tom da articulação. Flávio apresentou o Senado como principal espaço de resistência ao governo e vinculou a escolha de Marinho à capacidade de enfrentar o presidente. Aos apoiadores, disse que seria necessário impedir ou retardar o que descreveu como um futuro “caos” no país.

Não se trata apenas de uma preferência por um nome para administrar os trabalhos legislativos.

Na estratégia exposta no pronunciamento, o comando do Senado passa a ser uma peça central da pressão sobre o governo que acaba de receber um novo mandato nas urnas.

O resultado oficial é inequívoco: Lula foi reeleito com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio recebeu 59.826.041 votos, ou 48,21%, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. A votação expressiva do derrotado lhe assegura representatividade política, mas não transforma derrota em autorização para desconsiderar a escolha da maioria.

Outro trecho do pronunciamento ajuda a compreender o projeto político apresentado. Flávio afirmou que a economia será o principal fator de desgaste do governo e associou sua previsão de crise à possibilidade de Lula perder o cargo antes do que muitos imaginam.

“Infelizmente o Brasil está fadado a quebrar”, declarou. Em seguida, disse acreditar que esse seria um dos fatores capazes de derrubar o presidente.

O “infelizmente” faz parte da declaração: Flávio não afirmou literalmente que deseja uma crise. O que fez foi apresentar sua previsão de colapso como argumento para reorganizar a oposição e alimentar a expectativa de uma nova disputa presidencial antes de 2030.

No pronunciamento, não apresentou indicadores que demonstrassem a inevitabilidade da “quebradeira generalizada” anunciada.

Tampouco detalhou propostas para impedir o cenário descrito. O centro da mensagem foi a mobilização dos aliados, a conquista do comando do Senado e a expectativa de enfraquecimento do adversário.

Fiscalizar o Executivo, disputar o comando do Legislativo e combater propostas governamentais fazem parte da democracia. O problema político aparece quando as dificuldades do país passam a ser tratadas, antes de tudo, como oportunidade para recuperar o poder.

Uma crise econômica não atingiria apenas Lula. Atingiria trabalhadores, comerciantes, empresas e famílias, inclusive os brasileiros que votaram em Flávio.

É nesse ponto que a estratégia merece cobrança: a oposição pretende apresentar alternativas para melhorar a vida da população ou organizar sua atuação em torno da expectativa de que tudo dê errado?

O Senado não deve ser extensão de uma campanha que terminou. E o sofrimento da população não pode virar instrumento de revanche eleitoral.

Fazer oposição a Lula não dispensa responsabilidade com o Brasil. Quem pretende voltar a governar precisa demonstrar compromisso com o país também quando perde.