Impacto da Derrota Republicana no Apoio a Milei
O resultado das eleições de meio de mandato nos EUA pode afetar acordo de US$ 20 bilhões com a Argentina.
Depois de conduzir grande parte de sua política externa alinhada ao seu homólogo norte-americano, Donald Trump, o presidente argentino, Javier Milei, pode ser diretamente prejudicado pelos democratas no Congresso. A influência deles pode limitar o principal apoio externo de que dispõe o programa econômico do governo argentino.
No centro dessa preocupação está o swap (troca de moedas) de US$ 20 bilhões (mais de R$ 109,19 bilhões) que o Tesouro dos EUA, sob a gestão de Scott Bessent, firmou com o Banco Central da Argentina em outubro de 2025, em plena campanha legislativa no país. A Casa Rosada chegou a utilizar US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 13,65 bilhões) antes das eleições, devolvendo o montante em dezembro daquele ano; contudo, a linha de troca de moedas permanece vigente.
A operação foi questionada desde o início pela oposição norte-americana. Um grupo de 36 deputados democratas exigiu que Bessent revelasse os custos e riscos do acordo. Além disso, a senadora Elizabeth Warren, principal democrata no Comitê Bancário do Senado, enviou uma carta solicitando o encerramento da linha, alertando que ela continuava ativa muito tempo após as eleições argentinas.
Esse apoio constitui um dos elementos da chamada "bazuca" de dólares com a qual o governo da nação sul-americana promete conter qualquer pressão de desvalorização cambial em 2027, ano de eleições presidenciais. Milei estimou o valor em US$ 125 bilhões (aproximadamente R$ 682,4 bilhões), uma cifra que inclui os swaps com Washington e Pequim (de US$ 20 bilhões cada) e que supera os US$ 75 bilhões (cerca de R$ 409,4 bilhões) mencionados pelo próprio mandatário no início de outubro.
Com maioria em ambas as Casas, os democratas passarão a controlar as comissões com poder de convocar autoridades e exigir documentação sobre o Fundo de Estabilização Cambial, o instrumento do Tesouro que financiou o swap. Até agora, o controle legislativo sobre esse fundo limitava-se, em grande medida, a relatórios a posteriori sobre suas operações, apresentados pelo Tesouro mensal e anualmente.
A legislação vigente também impõe um limite, já que, desde 1977, os empréstimos concedidos pelo fundo não podem ultrapassar seis meses, a menos que o presidente notifique o Congresso sobre a existência de "circunstâncias únicas ou exigentes". Somam-se a isso projetos que visam proibir qualquer assistência à Argentina por meio desses recursos. Contudo, uma eventual aprovação esbarraria no veto presidencial, o qual os democratas não conseguiriam derrubar sem o apoio de dois terços dos parlamentares.
Por outro lado, a Casa Branca mantém seu respaldo. Em outubro, Bessent deixou em aberto a possibilidade de uma nova intervenção financeira em favor da Argentina e defendeu o swap de 2025, afirmando que o Tesouro obteve lucros com a operação, alinhando-se ao apoio que Trump, na ocasião, condicionou ao resultado eleitoral de Milei.
O mercado já reflete essa incerteza. Após a divulgação dos resultados, o risco-país da Argentina, medido pelo JP Morgan, atingiu 827 pontos-base, o patamar mais elevado desde outubro de 2025 e mais que o dobro do piso de 403 pontos registrado em 7 de julho, ao passo que os títulos soberanos acumulam perdas entre 5% e 14% no ano.
Menos margem financeira
"Essa derrota de Trump retira do governo graus de liberdade adicionais, sobretudo do ponto de vista financeiro", disse à Sputnik Ramiro Tosi, ex-subsecretário de Financiamento da Argentina (2019-2022). O economista alertou que essa margem seria fundamental caso, no próximo ano, se repita uma turbulência como a ocorrida entre agosto e outubro de 2025.
Para o especialista, o mercado já vinha antecipando esse cenário. Ele lembrou que, em julho, após o pagamento do último cupom, o risco-país girava em torno de 400 pontos e que, desde então, a tendência "foi sempre de alta, pois os investidores começaram a questionar a consistência e a continuidade do plano, tendo em vista as eleições de 2027".
Segundo Tosi, após a assistência do Fundo de Estabilização Cambial dos EUA, a senadora Elizabeth Warren promoveu um projeto para evitar que esse tipo de auxílio se repetisse "sem qualquer consulta prévia ao Congresso; resta saber, portanto, se essa iniciativa voltará à pauta política ou não", alertou.
O especialista previu que a nova correlação de forças obrigará republicanos e democratas a negociar temas centrais para a economia norte-americana, nos quais questões periféricas como a Argentina "podem ou não ser incluídas". Caso esse cenário se complique, Washington poderia recorrer à sua influência junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial para manter a assistência, argumentou.
Consultado pela Sputnik, o cientista político Mauricio Vázquez acrescentou um componente geopolítico ao resultado eleitoral.
"Ontem, a narrativa geopolítica de Milei sofreu uma derrota duríssima. Isso atinge diretamente o governo, uma vez que toda a sua diplomacia foi estruturada em torno do alinhamento à figura de Trump e a todos os atores apoiados por ele", acrescentou.
Uma 'bazuca' sob suspeita
Com um olhar crítico sobre a estratégia oficial, Tosi questionou a própria noção de "bazuca". Segundo ele ressaltou, a literatura econômica recomenda que as autoridades evitem "o fenômeno da profecia autorrealizável, algo que, neste caso, o próprio governo está alimentando com seus anúncios de possíveis turbulências financeiras no próximo ano", as quais exigiriam uma "bazuca".
O economista lembrou que, em menos de três semanas, os números oficiais sobre a capacidade de atender à demanda por dólares — por parte de poupadores, empresas e para o pagamento de dívidas — sofreram alterações. "Quando o mercado começou a analisar os detalhes concretos da composição desse número, surgiram elementos de eficácia duvidosa", observou.
"O investidor profissional ou institucional observa, como sempre, a taxa de rentabilidade esperada ajustada ao nível de risco", explicou Tosi. Como referência, citou o Equador, cujo risco-país também subiu nas últimas semanas, embora bem menos do que o da Argentina, que já se encontra acima dos 800 pontos-base.
Vázquez apontou que "Trump enfrentará um Congresso muito mais hostil, que poderá, sem dificuldades, investigar cada movimentação financeira como o apoio concedido a Milei no ano passado, o que pode restringir a possibilidade de uma repetição no próximo ano".
Na mesma linha, o cientista político relacionou o resultado ao cenário regional. "As eleições recentes no continente foram desfavoráveis a Milei. As derrotas de [Flávio] Bolsonaro e de Trump deixam evidente a fragilidade de sua estratégia, que consistiu em apostar todas as fichas nesses dois líderes", afirmou.