MÚSICA

Afrika Gumbe aprofunda universo lírico de “Soro Energizado” e revela as camadas poéticas do álbum

Trio detalha as narrativas por trás das faixas e reafirma o disco como obra conceitual e atemporal

Por Assessoria Publicado em 10/02/2026 às 12:33
Rodrigo Ferraz

Após 15 anos e uma pandemia, o grupo Afrika Gumbe lança seu terceiro álbum, Soro Energizado, pelo selo Lobo Records. A obra marca um novo capítulo na trajetória do trio formado por Marcelo LobatoMarcos Lobato e Pedro Leão, e mergulha em uma sonoridade intensa que cruza ritmos afro-brasileiros, música progressiva e psicodelia com crônicas urbanas e existenciais. Ouça “Soro Energizado” nas plataformas digitais.

Dedicado à memória do fotógrafo Diego Matheus, vítima da Covid aos 34 anos, e do cantor e compositor paraibano Ivan Santos, o álbum é uma ode à resistência, à espiritualidade e à reinvenção. “Aprofundamos nossas raízes rítmicas, progressivas e psicodélicas, num disco denso e compacto que, em nove canções, fala do homem urbano, seus sonhos e aspirações”, comenta Marcos Lobato.

A faixa “A Rede e os Peixes” sintetiza esse olhar simbólico e poético ao recorrer a imagens atávicas e bíblicas para refletir sobre escolhas, desejos e limites. “O que aprisiona a vida pode também conter a liberdade e a sua expressão. Existe sempre o drible, a quebrada”, explica Marcos. Para ele, o desejo, o movimento libertador e a miscigenação surgem como forças capazes de abalar a ordem vigente, em uma canção que transita entre o fogo da liberdade e os ferros do aprisionamento.

Já “Ele Amarelou, Mas Fez o Gol” retoma um dos eixos centrais da escrita de Marcos desde os tempos d’O Rappa: o retrato de um sujeito adulto, falho e contraditório, distante de qualquer moral idealizada. “É um herói urbano possível, errante. Um avatar covarde, com passado misterioso, que apesar de suas questões resolve, faz o gol”, define o compositor, em uma metáfora direta com as decisões da vida real.

Em “Estação Espacial Lunar”, o álbum se abre para o imaginário da ficção científica retrô, atravessado por referências brasileiras. “Trago essa atmosfera sci-fi para a brasilidade, para o samba e o futebol”, explica Marcos. A faixa busca recuperar a magia do universo fantástico da infância, em um cenário onde a nave tem alpendre, há um pomar com sombra e a vastidão do espaço se equipara ao mar. “O perigo e o desconhecido estão dos dois lados do muro, enquanto o personagem observa toda essa magia sentado na varanda da Estação Lunar.”

Entre banjos, bandolins, cavaquinhos, hurdy gurdy (instrumento medieval) e muitos tambores, Soro Energizado constrói um universo sonoro onde tradição e experimentação caminham juntas. O repertório traz releituras de “Vida Rasteja” e “Uma Vida Só”, faixas gravadas originalmente por O Rappa, além de “Wifi Free”, lançada como single em 2024 com a participação especial de Lenine, que empresta sua voz a um dos momentos mais simbólicos e magnéticos do disco.

Gravado no Estúdio Jimo (RJ) e com produção musical assinada pelo próprio grupo, Soro Energizado reflete uma maturidade artística que se manifesta tanto nos arranjos quanto na mensagem. “O Afrika convida, sentado no alpendre da Estação Lunar”, resume Marcos, sintetizando o espírito de acolhimento, introspecção e observação do mundo que atravessa todo o álbum.