O carnaval que não aparece na TV: contos de violência, paixão e morte na cidade do frevo
Recife, com suas festas e desigualdades, é o cenário de Frevo noir (Editora Mondru, 118 págs.), estreia do pernambucano Paulo André Souza (@p.a._souza). O autor, que também é delegado da Polícia Federal, reúne 16 contos divididos em quatro partes (Pulsação 1, 2, 3 e 4), nesse verdadeiro thriller social, em que o carnaval surge como metáfora para revelar contradições sociais, psicológicas e existenciais da capital pernambucana.
As histórias exploram personagens ambíguos, em busca de fuga ou expansão, sempre atravessados pelo paradoxo de uma cidade que festeja e sufoca ao mesmo tempo. “Frevo noir é uma ode à contradição. São personagens em rito de expansão ou de fuga, numa cidade que os sufoca. Os crimes, as paixões e os mistérios são estados da existência em que esse paradoxo melhor se revela”, explica o autor.
O livro se destaca por diálogos irônicos, atmosfera existencialista e referências à cultura pop — de Hilda Hilst a Pink Floyd, passando pela filosofia de Nietzsche. Em “Mapas de mergulho para ogivas nucleares", o humor surge como forma de suavizar uma situação potencialmente catastrófica; já em “O filósofo e o homem da meia-noite”, o jazz se torna ponto de partida para reflexões filosóficas sobre a vida.
Segundo a escritora Conceição Rodrigues, que assina o texto de orelha, Frevo noir é “pop e vanguarda, ironia e lirismo”, conduzindo o leitor por um universo de “amores crus, trapaças, cobiça, grito e omissão, alegrias e sombras”.
Formado em Direito e especialista em Ciências Criminais, Paulo André também cursou extensão em Escrita Criativa na PUCRS e integrou a oficina literária de Raimundo Carrero, no Recife. Entre suas influências literárias estão o próprio Carrero, Machado de Assis, Rubem Fonseca e Ana Paula Maia. A obra também bebe nas tintas de letristas da música — de Luiz Gonzaga a Engenheiros do Hawaii e Chico Science & Nação Zumbi — e do cinema de Hitchcock, Tarantino e Kleber Mendonça Filho.
A estreia inaugura o que o autor projeta como uma trilogia de contos. “Escolhi o conto, porque talvez seja a forma mais desafiadora e ao mesmo tempo repleta de atalhos para iniciar a busca de novas dúvidas para a existência. Novas dúvidas e novos mundos possíveis”, afirma.
Confira trechos de dois contos de Frevo noir
“Vomitou a sentença assinalando guimbas de aço no cinzeiro que o maître acaba de trazer. [...] Ele pisca os olhos na minha direção, pede outra garrafa de vinho e diz, quase um sopro, velhinho, vá em paz, tá tudo bem.” (trecho do conto “A ética de Sade”)
“Vou atrás de quem? Meu rumo é o prédio. Minha abstração recende a manga suculenta. Cheiro de manga caindo e cerveja. Cornetas e batuques se apagavam virando cantinela de remotos estertores. [...] Só o frevo ecoando seus passos intitulados ferrolhos, tesouras, dobradiças, parafusos.” (trecho do conto “Admiro claraboias em simetria com o chão”)