LITERATURA

De Alexandre, o Grande, a uma alemã que viaja pela Amazônia no século 21: o mosquito que mudou a história do mundo chega às livrarias brasileiras

Por Julio Sitto Publicado em 23/02/2026 às 16:01
Malária: um romance, de Carmen Stephan Divulgação/Tinta-da-China Brasil

O premiado Malária: um romance, da alemã Carmen Stephan, une autoficção e divulgação científica. A narradora é improvável: a fêmea de anófeles que, por séculos, decidiu guerras, derrubou impérios — e acompanhou, dia a dia, cada febre de uma mulher enferma no Rio de Janeiro

Em março, a editora Tinta-da-China Brasil lança Malária: um romance, de Carmen Stephan — um livro premiado que parte de uma premissa improvável: como seria uma autoficção narrada por um mosquito? Em 2003, na Amazônia brasileira, a alemã Carmen Stephan pegou malária. O diagnóstico tardou, e a autora quase morreu. Anos depois, inspirada pelo livro O médico doente, de Drauzio Varella, Stephan enfim tomou coragem de escrever essa história, mas o caminho que ela escolheu está longe de ser o mais fácil.

Em vez de apostar na primeira pessoa, tão usual na literatura contemporânea, Stephan elegeu como narradora a fêmea de anófeles que a picou, e que depois dessa picada ficou atormentada pela culpa e se irmanou com a vítima, passando a conhecê-la profundamente — a ponto de rememorar eventos de sua infância. Afinal, o mosquito é habitado pelos mesmos parasitas que se espalham pelo sangue da hospedeira quando a pica. Ele mata para não morrer. Stephan é fascinada pela imagem: “Nesse sutil e avermelhado lugar da picada na pele de Carmen, morte e vida se juntavam num ponto quase invisível”.

A protagonista é Carmen, mas não a mesma Carmen que escreve — uma Carmen contaminada em 2004 e que talvez tenha um destino diferente. A evolução da doença no corpo da personagem segue o formato de um angustiante diário em direção ao nada; em meio ao abandono e à incompetência, o diagnóstico parece ficar a cada dia mais distante. O país vive uma epidemia de dengue e os médicos estão convencidos de que Carmen é mais um caso, por isso nem a examinam direito. “A única coisa de que vocês dispõem é a consciência; e vocês não a usam”, diagnostica a anófeles. O corpo da mulher é submetido à violência, ao descaso médico e hospitalar, e os profissionais não escutam os sinais da paciente como deveriam.

Assim os parasitas encontram as portas abertas para se espalhar pelo seu sangue, se alojar em seu fígado, atacar gradualmente os órgãos e lhe causar uma febre delirante, durante treze dias e noites. Para entremear esse diário de enfermidade, a narradora apresenta uma pesquisa rica, repleta de conhecimento e apuro técnico, da história da malária e de sua descoberta pela humanidade. É mais uma trajetória feita de enganos, começando pela etimologia da palavra: acreditava-se que a malária vinha do ar ruim dos pântanos, daí “mal aria”.

De mãos dadas com as patas da fêmea transmissora, seguimos cada passo dado por cada cientista, numa competição entre ingleses e italianos cheia de reviravoltas. No fim, foi o britânico Ronald Ross quem “fincou a bandeira na lua da malária”, como escreve Stephan — e pelo feito recebeu o prêmio Nobel em 1902. Mas há controvérsias.

Aos leitores é ofertado um banquete histórico e cultural: conhecemos as crenças de cada época, os tratamentos mais estapafúrdios já inventados e as maiores matanças causadas pela malária e seu exército de chicotinhos — os plasmódios que invadem o sangue dos insetos e o dos humanos. A construção do canal do Panamá, por exemplo, no final do século xix, vitimou mais de 20 mil homens, e a anófeles nos conta por quê: “Em Colón, os pacientes dispunham de vista para o mar e o vento tropical circulava pelos ambientes abertos. Sim, e os pés dos leitos, os pés dos leitos estavam metidos em bacias com água. Bacias bonitas, pequenas, que impediam a subida de formigas e de aranhas. Ali nos multiplicamos”.

A narradora explica com orgulho como seus semelhantes podem ter interferido na história mundial: “Quem freou Alexandre, o Grande, o conquistador do mundo? Uma cruzinha preta, que aterrissou num pedaço de pele. A malária interrompeu Cruzadas, lançou na cova mendigos, crianças, imperadores e papas, vicejou nas duas guerras mundiais. Não foram os canhões, não foram os adversários que decidiram algumas batalhas, mas uma manchinha flutuante com um par de asas. Quem protegeu Roma da invasão dos povos germânicos? E quem acabou contribuindo para a queda do Império Romano? Mosquitos não têm partido”.

Num outro capítulo da história da humanidade, os nazistas tentam fazer dos mosquitos seus cúmplices, inundando as terras italianas onde esperavam os Aliados. No pântano, surgiria um viveiro de morte, e os mosquitos atacariam os inimigos. A solução veio com o veneno e o slogan “let us spray”, até que “crianças nasceram sem olhos e sapos com três pernas”.

A natureza retratada por Stephan é implacável, e seu romance nos faz questionar profundamente nosso antropocentrismo. Espirituosa, a fêmea de anófeles — que ironicamente quer dizer “inútil” em grego — nos lembra que, segundo a Bíblia, ela existia antes do homem, que só foi criado no último dia: “Vocês são os invasores do nosso mundo”.

Desde a primeira página de Malária: um romance, a morte está à espreita, nos fazendo notar que não temos controle sobre o nosso destino e vivemos alheios ao fato de que todos, um dia, vamos morrer. Até que ela bate à nossa porta, e somos forçados a encará-la.

Vencedor dos prêmios Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e Buddenbrookhaus para romance de estreia, na Alemanha, esse diário aterrador consegue ao mesmo tempo nos divertir e informar, além de refletir profundamente sobre a relação entre o homem e a natureza. Um romance original, ambientado na Amazônia, na Bahia e no Rio de Janeiro, que une a potência das narrativas autobiográficas, a maestria da construção ficcional e a beleza da divulgação científica. 

Malária: um romance, de Carmen Stephan, foi traduzido por Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut e chega às livrarias brasileiras em março de 2026 pela Tinta-da-China Brasil.

Sobre a autora

Carmen Stephan (Berching, Alemanha, 1974) vive na Bahia. Depois de vários anos morando no Rio de Janeiro, publicou em 2005 seu primeiro livro, Brasília Stories, uma coletânea de contos. É autora, ainda, de It’s All True (2017), traduzido na França, que conta a história de quatro jangadeiros e recebeu uma bolsa de literatura da Baviera. Stephan trabalhou por muito tempo como jornalista para a SZ-Magazin e o Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, entre outros veículos. Viveu também em Genebra e Munique.

Sobre a tradutora

Claudia Abeling (São Paulo, 1965) cursou editoração na eca/usp e fez a Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Foi editora de diversas casas literárias paulistanas e, como bolsista da Fundação Bertelsmann, trabalhou também em Frankfurt, na Alemanha, nas editoras Campus e Vittorio Klostermann. Num segundo momento, concentrou-se na tradução do alemão. Entre títulos trazidos ao português, dois foram finalistas do prêmio Jabuti. Também é autora dos livros de poemas p:l:a:n:g:e p:l:a:n:g:e (Quelônio, 2019) e a que manca, no prelo.

Ficha técnica

TítuloMalária: um romance
Autor: Carmen Stephan
Tradução: Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut
Capa: Vera Tavares
Páginas: 168 pp.
ISBN: 978-65-84835-59-7
Formato: Brochura, 14 x 21 cm
Preço: R$ 79,90
Data de lançamento: 14 de março de 2026

Sobre a Tinta-da-China Brasil

Tinta-da-China Brasil foi fundada em 2012, no Rio de Janeiro, por Bárbara Bulhosa, para trazer ao país a excelência da casa fundada em 2005 em Lisboa. Em 2022, a editora brasileira passou para os cuidados da Associação Quatro Cinco Um, em São Paulo, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, que deu prosseguimento ao projeto editorial, concentrado nos eixos de literatura, história e ciência, com desvios pelo humor, jornalismo, quadrinhos e crítica literária.