José Castello lança pela Maralto Edições o livro 'Histórias miseráveis'
Organizada pelo jornalista e escritor Rogério Pereira, a obra reúne crônicas publicadas no jornal Rascunho e no Suplemento Pernambuco
A Editora Maralto lança no mês de abril o livro Histórias miseráveis, uma coletânea de crônicas do premiado escritor, jornalista e biógrafo José Castello. Com seleção, organização e apresentação do jornalista e escritor Rogério Pereira, a obra reúne 35 textos publicados originalmente entre dezembro de 2016 e setembro de 2023, no jornal Rascunho e no Suplemento Pernambuco.
Histórias miseráveis propõe um mergulho sensível e profundo nas contradições da vida urbana contemporânea, ampliando o olhar sobre o mundo e sobre as idiossincrasias que atravessam a trajetória humana em meio ao caos das grandes cidades. Castello assume o papel de um flâneur, o observador atento que percorre as ruas, mas com um diferencial: seu olhar se detém sobre aquilo que não é imediatamente visível, buscando penetrar na existência e na alma de seus personagens.
O livro abre com “A filósofa de guarda-chuva”, uma crônica que evoca a infância do autor, quando ele lia escondido sob as cobertas, iluminando as páginas com uma pequena fonte de luz. Essa imagem íntima e fundadora transforma-se no emblema da escrita de José Castello, que faz da palavra um instrumento de revelação, capaz de iluminar os territórios invisíveis da experiência humana. Com uma linguagem refinada e reflexiva, ele lança seu foco sobre figuras à margem, desabrigados, solitários, existências silenciadas, e constrói narrativas que mesclam o cotidiano a lampejos de absurdo e de inquietação existencial. Assim, o livro convida o leitor a suspender certezas, exercitar um olhar mais atento e compassivo e reconhecer, mesmo em cenários marcados pela indiferença, a persistência da humanidade e do sentido.
“Há, em minhas crônicas, não posso negar, uma atmosfera pessimista e melancólica”, reflete José Castello. “Não só pelos limites estreitos e sufocantes que definem a aventura humana, mas também pelos tempos difíceis e até dramáticos em que hoje vivemos. Meu narrador, esse cronista desesperançado que não sou eu, mas que se parece muito comigo, é um homem que tenta resistir em meio a um mundo que desaba e se desfigura. Em seu cotidiano, ele luta para se conectar com uma realidade que lhe escapa e que o ignora e despreza. Hoje, a miséria está exposta, de modo escandaloso, nas ruas das grandes cidades. Ela se incorpora, sobretudo, nesses seres invisíveis que dormem sob as marquises e que se agasalham em trapos imundos e em caixas de papelão. O capitalismo avançado produz riqueza para uma minoria. Ao mesmo tempo, produz imensa miséria e uma infeliz horda de miseráveis. Com as armas frágeis de que dispõe, meu cronista luta para se aproximar desses tristes seres invisíveis, que o capitalismo descarta como se fossem lixo.”
Em Histórias miseráveis, a literatura é apresentada como o mundo que conhecemos, mas acrescido de um “olhar imprevisto”. Como define Rogério Pereira na apresentação, citando a própria obra, trata-se da aventura de um cronista que “não descansa enquanto não estabelece laços entre coisas desamarradas”.
Fujo do vento que sopra na Atlântica e me embrenho pelas ruas internas do Leme. Logo à frente, vejo um velho — um homem cansado e triste como eu. Apoia-se nas grades de um prédio, tem as mãos abraçadas aos joelhos, o rosto coberto com rugas pretas, os cabelos em cataclismo. Sua figura é incoerente e torta. Logo que me vê, ele grita: “O senhor me arranja um cobertor?”.
(“O homem do cobertor”)
“Todas as minhas crônicas guardam um fundo autobiográfico. O que não significa dizer que elas sejam confissão, ou autobiografia. O eu que narra minhas crônicas sou eu, mas não sou eu. É, de novo, um ser limítrofe. Um ser impreciso, como é imprecisa a realidade em que ele se move. Não interessa saber se tal fato aconteceu mesmo comigo, ou não aconteceu. O que importa saber é se fui capaz de fazer algo com ele. Se fui capaz de usá-lo como uma alavanca para acessar o real”, finaliza José Castello.
A obra já está à venda no e-commerce da Maralto Edições e em livrarias parceiras. Também faz parte do Programa de Formação Leitora Maralto, uma iniciativa direcionada a escolas de todo o país.
Sobre o autor
José Castello nasceu no Rio de Janeiro, em 1951, e construiu uma trajetória marcada pela atuação como cronista, biógrafo, romancista e jornalista. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), iniciou sua carreira na imprensa cultural na década de 1970, passando por veículos de grande relevância como Veja, IstoÉ, Jornal do Brasil e O Globo. É autor de obras de destaque na não ficção, como Vinicius de Moraes: uma geografia poética e Inventário das sombras, além dos romances Fantasma e Ribamar, este último vencedor do Prêmio Jabuti. Vive em Curitiba desde 1994.