Treta 2 acerta o ponto mesmo com exageros narrativos
Segunda temporada da série, com novo elenco e história, critica a banalização da chantagem, a volatilidade do “eu te amo” e sugere uma vida em ciclos.
Uma das séries mais premiadas e cultuadas da Netflix estreou, dia 16 de abril, sua segunda temporada de maneira repaginada ao definir a proposta de antologia. Treta 2 (“Beef”, no título original), portanto, não exige que a audiência assista a primeira temporada para compreender a atual. As histórias são distintas, com personagens diferentes.
O novo roteiro mantém a proposta do caos nas relações e atualiza esta abordagem quando estende isso para a inteligência artificial. Incomoda muito e gera uma reflexão tremenda quando, por exemplo, um sujeito falsifica um diploma de ensino superior e “aprende” a profissão via ChatGPT.
Treta 2 aposta em um elenco estrelado, incluindo nomes consolidados do cinema, como Oscar Isaac (Frankenstein), Carey Mulligan (Bela Vingança) e William Fichtner (Armageddon). Também traz atores em ascensão, como Charles Melton (Segredos de um Escândalo) e Cailee Spaeny (que interpreta Priscilla Presley no filme “Priscilla”).
A “treta” já explode no início do primeiro episódio. Um casal que gerencia um clube de lazer luxuoso (e sonha em ter seu hotel/pousada próprio) inicia um violento e agressivo bate-boca. No momento em que a discussão começa a chegar às vias de fato, tudo é flagrado e documentado (por celular) por dois funcionários do clube (ambos, de baixa qualificação e mal remunerados). A partir daí, a série se torna um festival de chantagens o que, em determinado momento, parece integrar a normalização da vida destes personagens, independente da classe social. Nem mesmo o núcleo de magnatas, que completa a pirâmide de classes, consegue escapar.
O ritmo é bom, por vezes violento e intenso, alternando alguns momentos de respiro. A estreita distância entre amor e ódio – inúmeras vezes já abordadas pelo cinema – aqui ganha ares de crítica à banalização do “eu te amo”. No meio disso tudo, a série não esconde excessos que parecem ser uma das marcas dessa que caminha para se transformar em uma franquia de antologias. Portanto, é alvo de elogios e polêmicas. No quarto episódio, por exemplo, a direção “brinca” com estereótipos e viaja com devaneios pós-operatório e lisérgicos. A mim não atrapalhou (pelo contrário), mas pode incomodar muita gente.
Sem oferecer “spoiler”, sugiro atenção ao sentido de ciclo contínuo de vida (Saṃsāra, no conceito hindu) que o diretor e produtor executivo Jake Schreier sugere. Para tanto é necessária uma leitura transversal da série, sobretudo em sua reta final.
É bom lembrar que a primeira temporada de Treta empilhou prêmios. No Globo de Ouro 2024 venceu todas as três categorias que concorria (minissérie, ator e atriz). No Emmy 2023, foi premiada como melhor série limitada, melhor ator, melhor atriz, melhor direção e melhor roteiro. A segunda temporada é boa, mas será que consegue repetir o feito?
(*) É jornalista, pós-graduado em marketing, mestre em Produção e Gestão Agroindustrial e cinéfilo