'Fui do pixo para a fachada da ONU', relembra Kobra no SPIW
Artista brasileiro conta trajetória das ruas de São Paulo ao reconhecimento internacional durante painel no São Paulo Innovation Week.
Em qualquer lugar do mundo, é possível se deparar com uma obra de Kobra em prédios e grandes muros. Em 2022, o artista pintou a fachada da sede da ONU em Nova York, após um extenso processo de autorizações burocráticas.
O cenário é marcante para quem começou na ilegalidade, pintando muros, independentemente da permissão dos proprietários. "Fui do pixo para a fachada da ONU", relembrou Carlos Eduardo Fernandes Leo, o Eduardo Kobra, durante o painel Criar Horizontes a Partir dos Muros, no São Paulo Innovation Week, evento realizado em parceria entre o Estadão e a Base Eventos, nesta quinta-feira, 14.
De origem periférica, Kobra decidiu fazer das ruas sua grande tela aos 12 anos. Com poucas referências e exercendo uma arte até então marginalizada, aprendeu sozinho a desenhar os traços que o tornariam mundialmente famoso. Aos poucos, passou a ser contratado para pintar muros de estabelecimentos comerciais, mas ainda distante de qualquer glamour ou expectativa de viver da arte.
"Não havia nenhuma luz no fim do túnel, nada que eu pudesse me inspirar ou entender que esse caminho (da arte) me levaria a pintar esse mural da ONU em Nova York", destacou Kobra.
A primeira grande oportunidade veio com o convite para pintar o parque de diversões Playcenter. "Eu saía pelas ruas de São Paulo e pintava desenhos variados. Fazia, por exemplo, um super-herói, porque sabia que alguém poderia querer pintar o quarto do filho daquele jeito", contou. "Um dia, um agente viu os muros e me abordou, dizendo que estava acontecendo uma concorrência para pintar o Playcenter. Pediu três layouts; apresentei trinta e ganhamos a concorrência."
Nos primeiros dias de trabalho no parque, Kobra chegou a dormir junto ao equipamento de pintura, pois o trajeto de volta à periferia seria longo e custoso. Foram dez anos de trabalho no Playcenter, enquanto continuava a colorir muros de São Paulo e a lapidar seu estilo. De repente, sua arte ganhou o mundo.
Todas as conquistas, ele atribui à busca constante por aperfeiçoamento e à inquietude por novas referências. Desde cedo, entendeu que a pintura era sua vocação: dedica corpo e alma à atividade. Apesar de não sentir dores nas costas após horas pintando murais monumentais, sofre desde os 23 anos com as consequências da intoxicação por metais pesados presentes nas tintas.
O preço foi alto e contribuiu para que Kobra não se deslumbrasse com o sucesso. "Tenho intolerâncias alimentares. Para vocês terem uma ideia, não posso comer nada com açúcar, leite ou glúten, por causa da intoxicação", revelou. "Digo isso porque, por mais que minha arte tenha me levado a lugares que jamais imaginei, graças a Deus, mantenho os pés no chão. Não tenho apego a questões materiais."
São Paulo Innovation Week
O São Paulo Innovation Week, maior festival global de tecnologia e inovação, é realizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, no Pacaembu e na Faap, até sexta-feira, 15. Entre os mais de 2 mil palestrantes convidados para os três dias de evento, estão especialistas brasileiros e estrangeiros em áreas como ciência, saúde, educação, agronegócio, finanças, mobilidade, geopolítica, esportes, sustentabilidade, arte, música e filosofia, entre outras.