'Não somos tão diferentes das pessoas do passado', diz Paulliny Tort, convidada da Flip 2026
A escritora brasiliense Paulliny Tort encarou um desafio e tanto ao escrever Os imortais (Fósforo): um romance situado na pré-história sobre o encontro entre indivíduos neandertais e Homo sapiens, exemplos, respectivamente, de uma espécie em vias de extinção e de outra que mal iniciava sua jornada.
Autora também de Erva Brava (Fósforo), de contos, Paulliny vai participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), entre 22 e 26 de julho, ao lado de outros escritores e escritoras que estão sendo confirmados aos poucos. Entre eles, já estão Bethânia Pires Amaro, Julieta Correa, Leonardo Gandolfi, Carmen Stephan, Andrea Bajani, Andrea Del Fuego e Kami Daoud. Rita Palmeira é a curadora e a poeta Orides Fontela, a autora homenageada.
Na entrevista abaixo, ela discorre sobre método de escrita ("meio Alice atrás do coelho branco"), referências clássicas e a força de "imagens que permanecem".
De onde surgiu a ideia de escrever um romance que se passa na pré-história?
Na verdade, não sei de onde as histórias de ficção vêm. Escrevo porque um personagem aparece e vou atrás dele, meio Alice atrás do coelho branco. No caso, quem apareceu primeiro foi o Homem, um dos personagens centrais. Há quem diga que escrever é sofrido e realmente não é fácil. Outro dia, assisti a um vídeo do Kurt Vonnegut falando sobre isso. Mas ele menosprezou os que sentem prazer na escrita, como escritores menores. Nisso, penso diferente. Talvez mais como David Lynch, que desfrutava do processo. Apesar dos desafios implicados na escrita, gosto de estar nesse outro mundo, com as pessoas da minha imaginação. Se "a ideia" vem de algum lugar, deve ser daí.
Vivemos em um momento no qual o futuro se apresenta em perigo, dadas as emergências climáticas e escaladas bélicas. Talvez fosse o caso de dizer: temos carência de futuro(s). O que uma narrativa situada na pré-história tem a nos dizer sobre a pós-história?
O escritor Flavio Izhaki falou algo interessante sobre Os Imortais. Ele disse que faz lembrar que tudo o que vive pode parar de existir um dia. É uma leitura muito condizente com meu sentimento geral, porque nossa espécie pode não ser tão especial quanto acredita, mas acho que as interpretações sobre o livro não cabem a mim, sabe? Quando escrevo, não faço isso pensando no que está fora da história. Esse é um movimento a posteriori, da recepção.
NOs imortais, indivíduos de duas espécies distintas de hominídeos (neandertais e sapiens) se encontram. Uma dessas espécies está relativamente próxima da extinção e a outra mal começou sua caminhada evolutiva. Um livro sobre as origens que é, também, sobre o fim. De que modo essa tensão alimentou a escrita? Não considerei isso enquanto escrevia, mas agora que você comentou me ocorre que é próprio da vida que as coisas tenham começo, meio e fim, depois novos começos e assim por diante.
Jornadas acontecem todos os dias dentro do nosso corpo, nas nossas células, entre os astros, nas menores partículas dos átomos. E nos especializamos tanto em conter quanto em acelerar esses processos. Descobrimos a penicilina, desenvolvemos a agricultura e inventamos as viagens aéreas, mas morremos mais depressa por má alimentação, poluição, guerras, extermínios. Talvez essa tensão seja uma marca nossa.
A literatura clássica é repleta de imaginações variadas acerca das origens, o Gilgámesh, o Enuma Eli, o Bereshit, as obras de Hesíodo, Ovídio e Lucrécio, entre outros. Você buscou e/ou encontrou alguma inspiração nessas (ou em outras) obras?
Sim, a literatura antiga é uma referência importante. Já escrevíamos quando ainda não conhecíamos a pressão de um racionalismo cartesiano nem a ideia de trauma. As imaginações corriam soltas, impulsionadas pelos mitos. Por outro lado, o que essa literatura nos mostra ainda é muito familiar. O dilúvio na epopeia de Gilgamesh lembra os dilúvios de agora, dos noticiários. O amor é sempre amor, a raiva é sempre raiva. Quando você lê O diálogo dos mortos, que Luciano escreveu no século II, os tipos de hoje já estão lá, patinando sobre paixões e dificuldades que ainda estamos longe de resolver. E temos uma sensação parecida quando, mais adiante, lemos Shakespeare. O tempo que separa as gerações humanas pode parecer muito grande, porque cada um de nós não dura mais que um século, mas chegamos a esse mundo faz pouco. Não somos tão diferentes das pessoas do passado.
A pesquisa é obviamente imprescindível para conceber uma narrativa situada em período tão remoto, mas, na medida em que você produz ficção literária, houve um momento em que a fabulação, por assim dizer, assumiu o controle? Ou o processo de pesquisa se desenrolou paralelamente ao de escrita?
Não houve uma pesquisa específica para Os Imortais, mas as leituras e os estudos que me acompanham devem ter contribuído. Evolução, primatologia e outros temas das ciências tem estado no meu radar há muitos anos. Sou jornalista, mas fui estudante de oceanologia, de engenharia florestal e, em 2019, cheguei a cursar dois anos e meio de ciências biológicas. Nesse tempo, tive a oportunidade de fazer um estágio em primatologia. Em 2021, comecei a trabalhar no romance, com esse pano de fundo, que é mais uma história de vida que uma "pesquisa". Até porque a infância com uma avó que me ensinou a viver com as plantas e os animais não é menos importante, como referência, que qualquer tratado. Não acho que escrevo sobre coisas que sei, mas sobre coisas que sinto. Então a fabulação está sempre no controle.
Quando li Os Imortais, tentei me lembrar de algum outro romance contemporâneo que lidasse com o mesmo período, e o único digno de nota que me ocorreu foi Os Herdeiros, de William Golding, que também aborda o encontro (ou confronto) entre neandertais e sapiens. Imagino que esse relativo ineditismo temático seja libertador. Seria o caso?
A pré-história acena de vez em quando nas artes, portanto não cheguei a considerar que o tema fosse inédito. Mas também não fui atrás de ver o que outros autores haviam realizado para usar como parâmetro. Gosto muito do Golding, mas não li Os herdeiros. Durante a escrita, em uma semana de repouso do texto, peguei para ler O linguado, do Günther Grass, mas não senti afinidade com o que eu estava fazendo. A guerra do fogo, do Rosny Aîné, me marcou muito como filme quando eu era criança, não como romance. A única referência realmente literária à pré-história que ecoa é O instinto de Inez, do Carlos Fuentes. Foi um livro - curtinho - que li no verão de 2005 e me pegou completamente. Uma maravilha. Narra duas histórias: uma relação amorosa entre uma soprano e um maestro e o encontro entre dois seres humanos solitários antes de qualquer linguagem. É uma representação poética da pré-história, sem relação com fatos científicos. Bem diferente do meu processo, mas cheia de imagens que permanecem.
Os Imortais
- Autora: Paulliny Tort
- Editora: Fósforo (232 págs.; R$ 84,90; R$ 59,90 0 e-book)