Como o realismo mágico ajuda crianças a lidarem com o luto?
Inspirado na Grécia Antiga, novo livro do artista plástico Carlos Dala Stella usa fantasia para abordar a passagem do tempo na infância.
O universo da literatura infantojuvenil brasileira ganha um novo e sofisticado capítulo que desafia o ritmo acelerado dos dias atuais. Consagrado pelo estilo que mistura fantasia e cotidiano, o gênero do realismo mágico volta aos holofotes com o lançamento de O anão de asas vermelhas, primeira fábula do escritor e artista plástico Carlos Dala Stella, lançada pela Maralto Edições neste mês de maio.
Ambientada no tradicional bairro de Santa Felicidade, em Curitiba (PR), a trama acompanha os irmãos Rael e Gala e a prima Lila. A rotina das crianças muda drasticamente quando elas capturam uma criatura insólita: um pequeno ser híbrido, com traços humanos e asas de borboleta. A partir desse encontro, o autor tece uma narrativa poética que utiliza o fantástico para abordar temas complexos e universais, como a infância, a passagem do tempo e o luto.
O papel do fantástico no desenvolvimento infantil
A escolha pelo realismo mágico não é apenas estética; ela funciona como uma chave de acolhimento para o leitor. Ao cruzar a barreira entre o real e o imaginário, a obra oferece um espaço seguro para que o público dialogue com sentimentos densos. O luto e a perda, muitas vezes tratados como tabus na infância, ganham leveza e plasticidade através dos olhos das personagens e do mistério que envolve o ser alado.
Para além da própria aventura, a obra se destaca pelo cuidado cirúrgico com a linguagem. Dala Stella foge das estruturas textuais simplistas e aposta em uma construção sensorial, marcada por orações fragmentadas e pausas convidativas. É um convite para desacelerar.
“Desde o primeiro capítulo, a linguagem também é protagonista, o que exige certa atenção do leitor”, explica o autor, que já foi finalista do Prêmio Jabuti. “Tanto quanto a aventura narrada, o percurso da linguagem também é uma experiência a ser provada, uma experiência plástica de sentido.”
De Ícaro à Anne Carson: as influências da obra
A estrutura de O anão de asas vermelhas bebe de fontes da literatura mundial. O estalo criativo do autor uniu o clássico mito grego de Ícaro à leitura de Autobiografia do vermelho, da aclamada escritora canadense Anne Carson. Da mesma forma que Carson atualizou mitos antigos, Dala Stella transformou suas referências visuais e literárias em uma pintura em movimento.
Entre as grandes inspirações para a atmosfera de mistério e encantamento do livro estão mestres do calibre de Gabriel García Márquez — um dos pilares do realismo mágico latino-americano — e o italiano Italo Calvino, conhecido pela força de suas fábulas e pelo poder do não dito. O resultado é um livro visual, onde as descrições de asas, animais e sonhos criam uma coreografia de palavras.
O livro já está disponível nas principais livrarias parceiras e no e-commerce da editora. Além do público geral, a obra também circulará em ambiente escolar por meio do Programa de Formação Leitora Maralto, levando o debate sobre arte, perda e imaginação para salas de aula de todo o país.