Vencedora do Prêmio LOBA, a escritora carioca Milena Martins Moura lança livro que expõe os desafios e traumas de mulheres autistas
O diagnóstico de autismo em mulheres adultas tem provocado intensos debates na medicina e na psicologia nos últimos anos, revelando como o público feminino frequentemente camufla sintomas para se adequar a padrões sociais. No campo das artes, esse processo de autodescoberta ganha contornos estéticos profundos. É sob essa intersecção entre trauma, identidade e neurodivergência que a poeta carioca Milena Martins Moura lança seu mais novo livro, o carro de apolo capotou no horizonte (Macabéa Edições).
Vencedora do prestigiado Prêmio LOBA, a obra de 156 páginas utiliza o humor ácido, o cotidiano e o absurdo para articular o desconforto e as dores de crescer sendo uma mulher autista em um mundo que ignora suas singularidades. O projeto gráfico e a estrutura dos poemas mimetizam o formato de um caderno de rascunhos, expondo as rasuras, as repetições e as fraturas do próprio processo criativo da autora.
O corpo e a mente neurodivergente como palco
Para Milena, a poesia funciona como uma investigação existencial que tensiona os limites do que é puramente autobiográfico. Ao usar a linguagem como uma espécie de jogo com o leitor, o eu lírico expõe as fraturas de uma mente que processa a realidade de maneira diferente.
"Sobre o pretenso elemento autobiográfico, o livro brinca com ele, essa tentação crítica. Narrar é recortar o real. E por isso mesmo, toda narrativa já parte de um pressuposto de falta", analisa a escritora.
A abordagem da neurodivergência no texto foge dos estereótipos clínicos comuns e ganha contornos de crítica social. O livro capta as angústias de uma geração que se sente estrangeira no próprio tempo. A voz construída nos poemas funciona, segundo a autora, como uma metáfora de uma juventude perdida em um planeta em constante colapso, nostálgica de promessas de estabilidade que nunca foram cumpridas pelo mercado ou pela sociedade.
Estética do erro e redes de apoio na literatura
Um dos grandes diferenciais da publicação é o forte senso de comunidade feminina que a envolve. Rompendo com as lógicas tradicionais do mercado editorial, todos os textos complementares da obra são assinados exclusivamente por escritoras contemporâneas, como Thaís Campolina, Luizza Milczanowski e Ana Luiza Rigueto. No prefácio, a tragicomedie da existência é apontada como a grande força motriz de Milena, que usa a ironia para encarar as tragédias diárias de uma "existência não solicitada".
Além disso, a crítica literária tem apontado o uso do "erro" e da rasura como métodos conscientes de escrita na obra da autora. Em vez de esconder as falhas e os pensamentos intrusivos típicos das crises de sobrecarga sensorial do autismo, o livro os coloca no centro da página, transformando o desconforto em potência estética.
Trajetória consolidada na cena nacional
Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986, Milena Martins Moura possui uma carreira acadêmica e artística sólida. Mestre em Literatura Brasileira pela UERJ e doutoranda em Literatura Comparada pela UFF, ela também atua como editora da revista cultural cassandra.
Sua obra anterior, O cordeiro e os pecados dividindo o pão, figurou como semifinalista do Prêmio Jabuti em 2024, consolidando seu nome na vanguarda da poesia nacional. Bebendo de fontes diversas que vão da irreverência de Bruna Beber e a acidez de Sylvia Plath à densidade musical do cantor Hozier, Milena prepara agora sua estreia na prosa, com um livro de contos e um romance inédito que já foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura. O novo livro de poesias já pode ser adquirido diretamente nos canais da editora.
