CULTURA

Museu Nacional recebe indumentária de Mãe Bernadete

Doação foi realizada por seu filho, Jurandy Pacífico, durante evento sobre memória e cultura quilombola.

Por Cristina Indio do Brasil – Repórter da Agência Brasil Publicado em 01/11/2026 às 14:01
Doação da indumentária de Mãe Bernadete ao Museu Nacional no Rio de Janeiro.

O Museu Nacional no Rio de Janeiro passou a ter em seu acervo uma peça de uso pessoal da ialorixá Mãe Bernadete, líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, assassinada em 2023. A comunidade fica na cidade de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador, Bahia.

A doação de uma indumentária – um vestido branco com detalhes em azul – foi feita pelo professor Jurandy Pacífico dos Santos, filho da ialorixá, durante a 3ª edição do Diálogos da Reconstrução, com o tema Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional, que ocorreu nesta semana na instituição, localizada em São Cristóvão, Zona Norte do Rio.

“A doação da indumentária não é apenas a doação de um objeto. Trata-se de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território”, afirmou Jurandy em entrevista à Agência Brasil.

Ele explicou que a indumentária representa mais que uma roupa, pois é uma forma de manter viva a memória de Mãe Bernadete. O gestor cultural destacou que o fato de a peça estar no Museu Nacional fortalece a cultura afro-brasileira e a memória dos povos que, historicamente, enfrentaram humilhações.

“Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo”, concluiu.

Jurandy também ressaltou que a doação ultrapassa limites territoriais, levando a história e os conhecimentos ancestrais da Comunidade Quilombola para um dos mais importantes espaços de preservação no Brasil. “Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua resistindo”, completou.

Assassinato

Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023 no Quilombo Pitanga de Palmares. Na ocasião, a vítima sofreu disparos enquanto estava com os netos. A promotoria concluiu que o crime foi motivado pela atuação da líder contra o tráfico de drogas na região.

O assassinato da ativista resultou em uma condenação de prisões de envolvidos no crime, e Mãe Bernadete estava sob proteção desde 2017, após o assassinato de seu filho, Binho do Quilombo.

Encontro

A 3ª edição do Diálogos da Reconstrução pelo Museu Nacional também contou com a participação de representações da Unesco e da UFRJ. O evento promoveu discussões sobre a preservação da memória e a valorização das narrativas quilombolas, com a intenção de construir um museu plural e democrático.

A importância da representação foi ressaltada pela diretora de Integração Museu e Sociedade, Thais Mayumi Pinheiro, que destacou a necessidade de ouvir as lideranças quilombolas sobre como desejam se ver representadas no Museu Nacional.