EDUCAÇÃO

Brasil perde 31,1% dos professores mais jovens em 10 anos; em Pilar (AL), docente mostra por que ainda vale a pena ensinar

No mês do professor, pesquisa mostra que, mantida a tendência, haverá em 2040 apenas um professor de até 24 anos para cada seis com 60 anos ou mais

Publicado em 16/10/2026 às 14:44
Brasil perde 31,1% dos professores mais jovens em 10 anos; em Pilar (AL), docente mostra por que ainda vale a pena ensinar

O Brasil enfrenta um desafio para renovar seus professores. Entre 2015 e 2025, o número de docentes do Ensino Médio com até 24 anos caiu 31,1%, enquanto o número de professores com 60 anos ou mais aumentou 104,5%. Mantida essa tendência, haverá, em 2040, um professor de até 24 anos para cada seis docentes com 60 anos ou mais. Os dados são da segunda edição da pesquisa Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp, que projeta ainda uma possível falta de cerca de 235 mil professores na Educação Básica até 2040.

Os números ajudam a dimensionar o desafio, mas não contam tudo o que acontece dentro de uma sala de aula. No mês do professor, a história de Lidiane Ferreira dos Santos mostra uma outra dimensão desse cenário: a de quem encontra na sala de aula uma razão para permanecer na profissão. Em Pilar, Alagoas, a professora do 2º ano acompanha de perto as descobertas das crianças e participa de uma etapa que pode mudar a forma como elas enxergam a própria capacidade de aprender.

“A escolha veio da convivência com as crianças e pelo respeito ao papel fundamental que os educadores desempenham no desenvolvimento humano e social desde os primeiros anos da vida escolar. Continuo porque acredito que a educação vale a pena”, afirma a professora.

Uma conquista que começou com a leitura


No 2º ano, uma das etapas decisivas do processo de alfabetização, Lidiane acompanha avanços que muitas vezes começam com pequenas conquistas. Uma delas marcou especialmente sua trajetória! Segundo ela, um aluno chegou à turma inseguro e desmotivado em relação à leitura. Dizia que não conseguia aprender e evitava ao máximo realizar as atividades.

Já no início do segundo semestre, ele ainda apresentava bastante dificuldade para avançar. Foi nesse período que a turma passou a trabalhar com o método fônico do programa Alfa e Beto (IAB). O Instituto está presente no município desde 2023, contribuindo para o trabalho de alfabetização desenvolvido nas escolas. Com mais de 20 anos de trajetória, é referência nacional em soluções educacionais baseadas em evidências científicas.

A proposta trabalha de forma explícita e progressiva a relação entre os sons da fala e as letras. Com atividades voltadas para a consciência fonológica e a correspondência entre fonemas e grafemas, o aluno começou a avançar e, em menos de três meses, já conseguia ler palavras e frases com autonomia.

Para Lidiane, porém, o resultado mais importante não estava apenas na leitura. “O impacto foi surpreendente. Ver o brilho nos olhos dele ao perceber que era capaz e testemunhar essa transformação em tão pouco tempo foi uma conquista gigantesca. Como professora, ver o resgate da autoestima desse aluno e a alegria dele ao se descobrir leitor é o que dá todo o sentido à minha profissão”.

Uma rotina construída passo a passo


No 2º ano, o processo de alfabetização exige que as crianças avancem gradualmente na compreensão do funcionamento da escrita. Para Lidiane, um dos diferenciais da proposta utilizada em sala está justamente em tornar explícita essa relação. “O grande diferencial é ensinar diretamente as relações entre os sons (fonemas) e as letras (grafemas). Em vez de esperar que a criança descubra o código por conta própria, o material oferece um caminho estruturado e progressivo”.

A experiência da professora do 2º, mostra, em uma sala de aula de Pilar, uma dimensão que os números sobre o futuro da profissão não conseguem revelar: o impacto cotidiano de um professor na trajetória de uma criança. Para ela, escolher a docência também significa participar da construção do futuro.

Trabalho que aparece nos resultados


A dedicação dos docentes também aparece no desempenho dos alunos. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dos anos iniciais do Ensino Fundamental, etapa em que Lidiane leciona, passou de 5,8, em 2023, para 6,3, em 2025. Nos anos finais, o índice também avançou, de 4,8 para 5,4 no mesmo período.

Pilar também recebeu o Selo Ouro na 2ª edição do Selo Nacional Compromisso com a Alfabetização, reconhecimento concedido pelo Ministério da Educação às redes que alcançam os critérios estabelecidos pelo programa.

Os resultados ajudam a dimensionar o trabalho desenvolvido na rede, mas a trajetória de Lidiane coloca esses números em perspectiva. Em uma sala de aula, avanços que aparecem nas estatísticas também podem significar uma criança que passa a acreditar que é capaz de aprender.

“Ser professor hoje é escolher estar no centro da construção do futuro. A preocupação com a falta de educadores não reflete a perda do valor da profissão, mas mostra o quanto a sociedade precisa de bons professores”, finaliza a professora.

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