MUDANÇAS CLIMÁTICAS

‘Linhas vermelhas' determinam pontos de divergências entre lideranças na Pré-COP30

Por Sputinik Brasil Publicado em 14/10/2025 às 19:53
© Sputnik / José Cruz / Agência Brasil

A menos de um mês da COP30, representantes do governo brasileiro apresentaram, em coletiva de imprensa nesta terça-feira (14), as principais linhas de atuação do país nas negociações climáticas.

Participaram a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a secretária nacional de Clima, Ana Toni, e o embaixador André Corrêa do Lago, que atua como negociador-chefe do Brasil no processo da Convenção do Clima.

As falas indicam que o Brasil pretende concentrar seus esforços em três frentes: implementação dos compromissos assumidos, avanço nas ações de adaptação às mudanças do clima e novos mecanismos de financiamento. O governo também reconhece que ainda há divergências entre países e que o consenso completo é incerto.

Financiamento climático e valorização da natureza

A ministra Marina Silva destacou que as discussões internacionais têm incluído de forma mais direta temas relacionados ao oceano e à proteção da biodiversidade. Segundo ela, o Brasil está propondo mecanismos que associam investimento e preservação ambiental, como a proposta de criação do TRF (Transição Justa e Financiamento Climático).

Marina mencionou também propostas de outros países, como a da Colômbia, que trata da troca de dívida por ações ambientais. De acordo com a ministra, a abordagem brasileira considera que diferentes países devem contribuir segundo suas condições e capacidades.

"Isso não é uma corrente. Cada um pode fazer um esforço nos bolsos de financiamento que são necessários", avalia a ministra.

Ela afirmou ainda que os eventos climáticos extremos exigem respostas conjuntas.

Os extremos climáticos já exigem que se aja local e globalmente. A mudança do clima não tem fronteiras, acrescentou.

Segundo Marina Silva, o Brasil já apresenta indicadores que podem ser utilizados como referência de implementação dos compromissos assumidos no Acordo de Paris. Ela citou a redução das queimadas em diferentes biomas no ano de 2025: 90% no Pantanal e na Amazônia; 88% no Cerrado e 71% em nível nacional

A ministra afirmou que esses dados são sinais de que o país está aplicando as decisões já firmadas nos fóruns internacionais.

"Vamos implementar o que foi decidido. E, para isso, é preciso estabelecer indicadores", pontuou.

A CEO da COP30, Ana Toni, afirmou que há convergência entre os países sobre a necessidade de tratar a adaptação de forma mais estruturada. Segundo ela, esse tema deve ocupar um lugar central nas negociações da COP30.

"Houve consenso de que a adaptação precisa ser tratada com mais robustez, sem competir com a mitigação, mas com a mesma relevância", avaliou.

Toni também mencionou que houve discussão sobre a criação de novos instrumentos econômicos voltados à valorização da natureza, além de propostas voltadas ao financiamento para adaptação. Segundo ela, países concordam sobre a importância do tema, mas divergem quanto aos caminhos e formatos.

Divergências, 'linhas vermelhas' e espaço para acordos parciais

Questionado pela Sputnik Brasil, o embaixador André Corrêa do Lago, negociador-chefe do Brasil, respondeu quais os principais dissensos que ainda permanecem antes do início da COP.

"As COPs têm essa dinâmica de suspense. Conseguimos alguns pré-consensos, mas muita coisa ainda está em aberto. Os países estão divididos internamente e cada subgrupo tem suas linhas vermelhas — os limites que não aceitam ultrapassar", salientou.

Corrêa do Lago explicou que, ao contrário dos primeiros anos do processo climático, os países hoje atuam de forma mais fragmentada, com subgrupos específicos. O Brasil realizou reuniões com blocos como o AOSIS (pequenos Estados-ilha), o grupo Guataxu (que inclui Austrália, Japão e Canadá) e a União Europeia.

"Eles [países] foram muito claros nos limites do que podem ou não aceitar. Esse mapeamento é útil para entender o espaço de negociação", pontuou.

O embaixador destacou ainda que, no caso da implementação, não há necessidade de consenso formal.

"A implementação é um exercício de cooperação. Podemos construir grupos de países dispostos a adotar certos caminhos, sem necessidade de unanimidade", arrematou.