Alunos de Direito da USP e ativistas pró-Palestina protestam durante palestra sobre Israel
Evento com presidente da ONG Stand With Us é marcado por tumulto, troca de ofensas e debate sobre liberdade acadêmica
Estudantes da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo de São Francisco, no centro da capital paulista, realizaram um protesto nesta segunda-feira (17) contra a presença do presidente da ONG Stand With Us, o cientista político judeu André Lajst, na instituição.
A palestra, que discutia o conflito entre palestinos e israelenses, já havia sido adiada anteriormente, em 13 de novembro, por motivos de segurança após manifestações similares.
Durante o evento, manifestantes interromperam a fala de Lajst com gritos de "genocida". Uma aluna afirmou: "Não se escuta genocida". Outro estudante acrescentou: "Você não é bem-vindo nessa universidade" e "A gente não debate com opressor". Uma ativista pró-Palestina, que não faz parte da universidade, declarou: "Vocês matam os palestinos".
O protesto gerou tensão e troca de ofensas entre apoiadores de Israel, que defenderam Lajst, e os manifestantes contrários à sua presença.
Lajst respondeu: "Eu não sou a favor de genocídio nenhum. O que vocês estão fazendo aqui é interrompendo o Estado Democrático de Direito".
O diretor da Faculdade de Direito, Celso Campilongo, criticou o tumulto: "Eu admito protesto, admito bandeiras, admito o que quiserem, exceto uma coisa: que impeçam o palestrante de falar. Estou aqui há 20 minutos e não consegui ouvi-lo. Quem não quiser ouvi-lo não precisa ficar. Não tem diálogo? Essa é a postura democrática?"
O protesto foi convocado pelo Centro Acadêmico XI de Agosto, que, em publicação nas redes sociais, manifestou "repúdio à presença de sionistas nas Arcadas" e afirmou que a instituição não pode "servir de palco para difusão de discursos que legitimam a ocupação, o colonialismo e a limpeza étnica". O post, porém, foi posteriormente deletado.
Lajst criticou a postura do centro acadêmico: "Há uma falta de liberdade de expressão acadêmica em alguns assuntos, quando eles mesmos falam de democracia". Ele classificou a publicação como "autoritária e totalitária" e reforçou: "É uma palestra acadêmica, não ativista. Mas só a presença de uma pessoa que apoia Israel já incomoda".
A professora de Direito Internacional e organizadora do evento, Maristela Basso, afirmou que "cancelar o encontro seria admitir que a universidade não está aberta a ouvir, não está aberta à diversidade". O evento "Conversas sobre o Mundo" está em sua terceira edição e já discutiu outros temas internacionais ao longo do ano.
André Lajst conta com segurança particular e já foi alvo de protestos em outras ocasiões, como na Universidade Federal do Amazonas, em 2018 e 2023—em uma delas, precisou ser escoltado pela Polícia Federal. Ele também já teve eventos cancelados por risco de agressão.
O professor de Filosofia do Direito, Ari Solon, que é judeu, criticou o que considerou um "post racista" do centro acadêmico, mas sugeriu que a faculdade promovesse um debate com múltiplos pontos de vista. "Sou a favor que ele seja recebido com cartazes de protesto, mas que se respeite o direito à palavra. Defendo a importância do diálogo", declarou.
Aluna é demitida após post em rede social
Uma estudante ligada ao Centro Acadêmico foi demitida do estágio no escritório Machado Meyer em razão da publicação da entidade nas redes sociais. O escritório afirmou pautar sua atuação pelo "respeito" e reiterou seu compromisso com um ambiente profissional saudável, inclusivo e construtivo, "baseado no diálogo aberto e no respeito mútuo". O nome da aluna não foi divulgado.