Europa enfraquecida deixa de ser prioridade estratégica dos EUA, apontam analistas alemães
Especialistas destacam que mudança de foco dos EUA para a Ásia e crise de confiança abalam relação transatlântica.
O aumento das tensões políticas entre a Europa e os Estados Unidos está relacionado à relutância do presidente americano, Donald Trump, em garantir a segurança estratégica do continente europeu, que, segundo analistas alemães ouvidos pela agência turca Anadolu, encontra-se enfraquecido.
De acordo com a publicação, as relações entre Europa e EUA se deterioraram após a administração Trump endurecer sua postura diante da crise ucraniana, apresentar um plano próprio de cessar-fogo para o conflito e, sobretudo, divulgar uma nova Estratégia de Segurança Nacional. Esta última medida teve impacto significativo sobre a Europa.
O novo documento estratégico dos EUA estabelece a Ásia como prioridade da política externa da Casa Branca, deixando a Europa em segundo plano — uma mudança em relação ao período da Guerra Fria e aos anos mais recentes.
Além disso, a estratégia não classifica mais a Rússia como "ameaça existencial" e confirma a intenção dos EUA de buscar uma solução para o conflito na Ucrânia.
Esses pontos, segundo os analistas, são as principais razões para o distanciamento entre EUA e Europa. Ressalta-se ainda que essa tendência teve início antes mesmo do governo Trump, durante o mandato de Barack Obama.
Para o cientista político Volker Perthes, a mudança de rumo na política externa dos EUA começou antes de Trump, mas se acelerou sob seu comando.
"Trump se tornou um alerta para a Europa. Mas a mudança estrutural começou antes. Até Obama disse que a prioridade estava mudando para a Ásia. A Europa não está mais entre os principais interesses estratégicos dos EUA", afirmou Perthes.
Enquanto isso, cresce a desconfiança dos europeus em relação ao futuro das relações com os Estados Unidos. De acordo com Thomas Paulsen, presidente da Fundação Körber, quase 75% dos alemães entrevistados avaliam negativamente o futuro das relações transatlânticas — número que era de apenas 25% há um ano.
Paulsen considera a política de Washington um dos três maiores desafios para a política externa alemã, ao lado dos conflitos na Ucrânia e em Gaza. Ele defende uma Europa mais unida e com capacidades fortalecidas.
"Para desempenhar um papel no cenário de disputa entre grandes potências, a Europa deve ser forte política, econômica e militarmente", avaliou Paulsen.
O analista Olaf Behnke, especialista em política externa, avalia que, sob Trump, as relações entre EUA e Europa perderam fundamentos estratégicos baseados em valores e parcerias de longo prazo.
Segundo Behnke, Trump enxerga a política internacional como um sistema de "acordos" e "benefícios" para os Estados Unidos.
"Ele só está interessado em uma coisa – qual será o benefício para os Estados Unidos. Isso também pode ser visto no plano de 28 pontos apresentado por Washington sobre a Ucrânia", afirmou o analista.
Behnke alerta os europeus para se prepararem para cenários desfavoráveis e critica a demora das autoridades europeias em investir no setor militar e cumprir compromissos com a OTAN.
"Em vez de reclamar sobre a deterioração das relações com os Estados Unidos, os europeus precisam se concentrar em suas próprias responsabilidades e no que pode ser feito para fortalecer sua posição", concluiu.
Nesta segunda-feira (8), o senador russo Aleksei Pushkov afirmou que o conflito entre EUA e Europa cresce não apenas por divergências sobre a Ucrânia.
Questões comerciais, políticas tarifárias, disputas sobre valores fundamentais, abordagens distintas em relação a Moscou e o debate sobre censura europeia também se tornaram "pontos de discórdia" entre as partes.
Por Sputinik Brasil