Ibovespa recua com maior aversão a risco após sinalização dura do Fed
Bolsa brasileira fechou em queda de 0,70%, aos 168.453,93 pontos, em dia de migração de recursos para Treasuries
A comunicação mais rígida do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), somada à admissão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pode haver alta nos juros norte-americanos ainda este ano, reduziu o apetite por risco nos mercados globais. O Ibovespa passou a operar em queda nesta tarde e chegou ao menor nível intradia desde 21 de janeiro, em meio ao direcionamento do fluxo estrangeiro para os Treasuries, títulos considerados os mais seguros do mundo.
A manutenção da taxa básica de juros dos Estados Unidos na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano já era amplamente esperada por analistas consultados pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado. A surpresa ficou por conta da postura do indicado por Trump, que não demonstrou maior tolerância com a inflação.
Em sua primeira reunião à frente do Fed, Kevin Warsh reformulou amplamente o comunicado, com um texto mais enxuto. Embora tenha eliminado o guidance, os dirigentes citaram explicitamente o conflito no Oriente Médio como um dos fatores de pressão econômica e elevaram as projeções de inflação e da trajetória dos juros futuros. Com isso, o mercado antecipou de dezembro para outubro a aposta de aperto monetário pela maior economia do mundo, segundo a plataforma de monitoramento CME Group.
Na entrevista coletiva, Warsh reforçou que o banco central americano buscará corrigir o fato de a inflação estar acima da meta de 2% há cinco anos. Ele acrescentou que não vê razão para revisar a meta até que a inflação atinja 2%.
"O Fed teve tom mais duro do que o mercado esperava. Como Trump trocou o presidente do Fed após críticas à política monetária, muitos pensavam que iriam colocar alguém com perspectiva mais branda, dovish. Mas não foi o que vimos na coletiva de imprensa. Warsh teve um tom duro", afirmou o sócio da One Investimentos, Pedro Moreira.
A economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, avaliou que a comunicação do Fed "reforçou de forma explicita que o comitê irá perseguir a estabilidade de preços".
Segundo o head de renda variável da Fami Capital, Gustavo Bertotti, a postura mais contracionista do Fed provoca retração no apetite por risco. Ele destacou que o desempenho do Ibovespa segue bastante dependente do fluxo estrangeiro. "Os títulos americanos são os mais seguros do mundo, ainda mais nos patamares de juros elevados. Então isso também pode levar a uma migração do fluxo para esses títulos", comentou.
Apesar de terem iniciado o dia em queda, os rendimentos dos Treasuries de 2 e 10 anos passaram a subir com força durante a tarde. Para a Capital Economics, as projeções do Fed indicam risco "claro" de aumento das taxas de juros ainda neste ano.
No Brasil, o mercado também aguarda a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, prevista a partir das 18h30. A maioria espera corte de 0,25 ponto porcentual na Selic, mas os efeitos de segunda ordem do choque de energia e a piora das expectativas de inflação geram dúvidas sobre a continuidade do ciclo de calibração nas próximas reuniões, conforme a pesquisa Projeções Broadcast.
O head de renda variável da AVIN, Gustavo Gomes, observou que a curva de juros praticamente não precifica cortes intensos até 2040, o que pesa sobre a renda variável. Juros mais altos tendem a deteriorar os resultados das empresas listadas na Bolsa, especialmente as ações mais ligadas ao ciclo doméstico.
Como pano de fundo, permanece a indefinição sobre o conflito no Oriente Médio, com informações divergentes a respeito da assinatura de um acordo entre Estados Unidos e Irã. Além disso, investidores seguem atentos a pesquisas eleitorais e à perspectiva fiscal no Brasil.
Depois de tocar mínima de 167.915,71 pontos, em queda de 1,02%, à tarde, e máxima de 171.878,23 pontos, alta de 0,56%, pela manhã, o Ibovespa encerrou o pregão em baixa de 0,70%, aos 168.453,93 pontos. O giro financeiro foi de R$ 28,86 bilhões. Ações cíclicas, como Natura, que recuou 8%, estiveram entre os principais destaques negativos. O índice também não contou com o apoio da Vale, que caiu 2%, enquanto bancos e Petrobras tiveram desempenho misto.