DIPLOMACIA

Lula defende diálogo e reforma de organismos internacionais durante cúpula do G7

Presidente participou como convidado do encontro em Évian, na França, e realizou agendas bilaterais; analistas avaliaram o peso político do fórum

Por Sputnik Brasil Publicado em 17/06/2026 às 20:30
Legenda não informada no material original. © AP Photo / Julia Demaree Nikhinson

Analistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliaram a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cúpula anual do G7, realizada em Évian, na França. O petista fez encontros bilaterais e buscou ampliar discussões sobre mudanças climáticas e reforma de organizações internacionais.

O presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, encerrou nesta quarta-feira (17) sua participação na cúpula anual do G7, em Évian, na França. Como convidada, a diplomacia brasileira atuou no evento com o objetivo de promover diálogos sobre temas como mudanças climáticas e reforma de organizações internacionais, entre elas a ONU.

Lula concluiu sua décima participação no fórum com uma coletiva de imprensa. Entre os assuntos abordados, afirmou que o vácuo deixado pela presença de Estados Unidos e União Europeia em regiões emergentes permitiu que a China se apresentasse como possível parceira.

O presidente também minimizou a ausência de uma reunião bilateral com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, a quem classificou como uma pessoa que “fala muito e ouve pouco”. Lula ainda comentou o fato de o empresário Elon Musk estar prestes a se tornar trilionário: “Não é normal”.

Em entrevista à Sputnik Brasil, analistas repercutiram a presença de Lula em um fórum que, segundo eles, tem se tornado cada vez mais político e menos econômico, característica associada à origem do grupo, formado pelas nações mais industrializadas da época.

Gustavo Glodes Blum, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de Campinas (Unicamp), afirmou que, desde a saída da Rússia do grupo, o caráter político do G7 cresceu, enquanto outros fóruns passaram a ter maior relevância no campo econômico.

“À medida que o G7 foi se tornando cada vez mais um fórum de construção de uma identidade política desses países que fazem parte do grupo, as declarações se tornaram mais contundentes, limitando a possibilidade do Brasil de se colocar em uma posição intermediária ou não se comprometer com determinados temas.”

Para Blum, que está em Genebra, na Suíça, como pesquisador convidado do Geneva Graduate Institute, é importante observar em que condição o Brasil participa das reuniões do G7. Na posição de convidado, Lula não tem poder de decisão, mas busca exercer influência por meio do discurso.

“A participação enquanto convidado, de fato, busca influenciar, mas não tem capacidade de decisão. Então, à medida em que essas reuniões mais restritas vão se tornando mais a regra, o que resta ao Brasil, de uma forma ou de outra, é tentar influenciar os resultados, ainda que não em uma posição de um dos Estados-membros que têm capacidade de definir como que esses processos vão acontecer.”

Carolina Pavese, professora de relações internacionais no Instituto Mauá de Tecnologia, avalia que o G7 tem se afastado de um espaço no qual discussões relevantes são aprofundadas em sua cúpula. Para ela, o encontro anual se tornou “um rito diplomático, um protocolo da agenda” dos presidentes e premiês do grupo.

“É um encontro elitista, no qual se reforça uma perspectiva muito autocentrada dessas grandes potências em relação à identificação que fazem das prioridades globais e também em relação à identificação de como endereçar essas prioridades. E as respostas tendem — e nesse G7 se confirmou isso novamente — a ficar muito longe do que de fato se precisa para atender às necessidades de todos os outros países que não estão ali presentes.”

Segundo Pavese, a principal importância do G7 para o Brasil está nos encontros bilaterais, nos quais o país pode “reiterar os seus votos de interesse, de credibilidade, de aposta nessas relações com essas lideranças mais próximas”. Para a professora, esses momentos permitem conversas mais diretas e incômodas, como as relacionadas às imposições comerciais da União Europeia às exportações brasileiras.

“O objetivo do G7 deveria ser um fórum mais informal, um encontro de um petit comitê, o que facilita as deliberações também. Se tem muita gente, fica difícil você ir a fundo nas negociações ou na exposição das suas agendas, e o G7 deveria ser esse espaço, mas, quando se omite a discussão de pontos críticos e de questões em que não há um consenso, como é a questão do protecionismo, ele perde um pouco a sua função.”

Afastada dos EUA, Ucrânia busca diálogo até com Brasil

Sem apoio de Trump semelhante ao que recebia de Joe Biden, Vladimir Zelensky tenta diversificar seus contatos com líderes internacionais. O mandatário encontrou Lula nesta quarta-feira, em reunião bilateral, para discutir a operação militar especial russa.

Blum afirmou que o tema não tem importância para a pauta do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, que prefere manter neutralidade e defender o diálogo entre nações.

“O Brasil não tem interesse [em discutir a operação], como já esteve interessado, por exemplo, na questão iraniana, de se apresentar como um mediador. Não é esse o interesse do Brasil.”

Na avaliação apresentada, para outros países do G7, como os Estados Unidos, é importante encontrar rapidamente termos para um cessar-fogo. Já a União Europeia enxergaria o conflito como uma forma de reviver a indústria bélica do continente e impulsionar a economia às custas de Kiev.

“A recuperação do complexo industrial militar europeu é uma solução macroeconômica para essa estagnação. Então, seriam mais empregos gerados, seria um fator multiplicador da economia importante, tanto que vários países, como a Alemanha, a própria Suíça, estão rediscutindo o serviço militar, a obrigatoriedade do serviço militar. Então, colocar esses jovens que não têm emprego na indústria militar ou no próprio Exército geraria uma resposta multiplicadora econômica, em termos macroeconômicos, muito boa para resolver essa estagnação.”

Para Blum, o apoio europeu aos ucranianos não envolve apenas uma questão ideológica, mas também interesses ligados às formas pelas quais a Ucrânia poderia impulsionar a economia europeia.

“A entrada de uma Ucrânia produtora de trigo na União Europeia facilitaria questões como a inflação dos alimentos, principalmente, que é uma questão que tem pressionado bastante o continente ultimamente. Mas também, se a gente for pragmático e cínico, a guerra na Ucrânia representa para a Europa a desculpa perfeita para recuperar o seu complexo industrial militar.”

‘Não existe filantropia no sistema internacional’

Durante o discurso após a conclusão da participação brasileira no G7, Lula pediu que os países mais ricos reduzam investimentos em armas para direcionar recursos ao combate à pobreza global e a investimentos em regiões emergentes, como África e América Latina.

“O primeiro-ministro alemão [Friedrich Merz] chegou a dizer que ele está gastando 15 bilhões de euros por ano com a guerra da Rússia-Ucrânia. Esse dinheiro poderia ser investido na América Latina. Não vou nem dizer para o Brasil, mas investido na América Latina, na África.”

Pavese classificou o discurso como “repetitivo”, “vazio” e “de púlpito”. A professora afirmou que não existe filantropia no sistema internacional, inclusive em órgãos multilaterais como a ONU, que, segundo ela, “tendem a ser controlados pelos Estados”.