Especialistas veem fragilidade em acusação dos EUA após adiamento de audiência de Maduro
Sessão judicial contra Nicolás Maduro e Cilia Flores foi remarcada de 30 de junho para 22 de julho, segundo a promotoria norte-americana
O adiamento da audiência judicial prevista nos Estados Unidos contra o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e a primeira-dama, Cilia Flores, levanta questionamentos sobre a legitimidade e o alcance do processo, segundo especialistas ouvidos pela Sputnik.
De acordo com a promotoria dos EUA, o pedido de adiamento da audiência, que estava marcada para 30 de junho, ocorreu por "razões logísticas e de segurança relacionadas ao transporte e à custódia dos acusados". O juiz federal Alvin Hellerstein teria aceitado a solicitação e remarcado a sessão para 22 de julho.
A promotoria também pediu que o caso fosse retirado dos prazos previstos na chamada "Lei do Julgamento Rápido". A justificativa foi permitir a apresentação de novas provas e dar à defesa tempo para analisá-las, além de avaliar quais petições preliminares pretende apresentar.
Uma decisão para 'afastar a presunção de inocência'?
A advogada especializada em direito internacional Ana Cristina Bracho afirmou, em entrevista à Sputnik, que o pedido de adiamento pode ser visto como um elemento relevante na dinâmica do processo judicial contra Maduro e Cilia Flores.
"Quando a Promotoria, como parte acusadora, solicita um adiamento, ela o faz no contexto da necessidade de construir um processo que supere o padrão da dúvida razoável, ou seja, que consiga afastar a presunção de inocência", explicou.
Segundo ela, a medida pode indicar dificuldades na consolidação do caso.
"A notícia [sobre o adiamento da audiência] mostra uma fragilidade na acusação que já havia sido apontada anteriormente, na qual os principais argumentos contra Nicolás Maduro e Cilia Flores não conseguiram se sustentar de forma suficientemente comprovada", acrescentou.
Bracho lembrou que o caso é cercado de controvérsias desde o início, incluindo questionamentos, segundo ela, sobre a legitimidade da detenção, a competência do tribunal e o respeito às garantias processuais.
"O processo contra Nicolás Maduro foi denunciado pela defesa e pela República Bolivariana da Venezuela como decorrente de uma ação ilegal. Recordemos que os chefes de Estado estão protegidos pelo direito de Genebra, que lhes concede imunidade", afirmou Bracho.
A advogada acrescentou que, apesar de Maduro representar uma nação, a situação é "absurda e antijurídica de que um tribunal de um município do distrito de Nova York" conduza o caso.
Para Bracho, trata-se de "um processo que não tem apenas dimensões penais, mas também profundas implicações de direito internacional e de relações entre Estados".
O direito à integridade física e psicológica deve ser garantido
Sob a perspectiva dos direitos humanos, o adiamento da audiência de Nicolás Maduro deve ser analisado a partir da integridade pessoal das pessoas detidas, afirmou à Sputnik a advogada Érika Yáñez.
"Estamos falando de pessoas privadas de liberdade, cujo direito à integridade física, psicológica e moral deve ser garantido em todo momento", declarou.
A jurista destacou que o direito à integridade está diretamente relacionado ao direito à saúde e à vida.
"Quando uma pessoa está privada de liberdade, o Estado assume a responsabilidade de garantir condições que permitam preservar sua saúde em todas as suas dimensões", explicou.
Yáñez também citou informações divulgadas por meios de comunicação internacionais sobre o estado físico desgastado dos detidos, segundo relatos, durante aparições judiciais, incluindo perda de peso e possíveis problemas de saúde.
Nesse cenário, a advogada ressaltou a necessidade de assegurar atendimento médico adequado nos centros de detenção.
"O direito à saúde não é suspenso pela privação de liberdade. Devem existir garantias efetivas de acesso a tratamentos, diagnósticos e acompanhamento médico, e isso deve ser assegurado pelo Estado norte-americano por meio do seu sistema de justiça. Esperamos que o caso do presidente Maduro e da deputada Cilia Flores não seja a exceção", concluiu.
Por Sputnik Brasil